Miles Away | Patience Please lança EP com o charme da sensibilidade pop

A mansidão é um detalhe sensorial que salta aos poros do ouvinte já nos primeiros instantes do andamento da composição. Com um frescor quase estonteante e uma delicadeza que beira um reconfortante intimismo, a canção é puxada por uma guitarra capaz de construir uma atmosfera aromática que, involuntariamente, encaminha o espectador ao torpor, enquanto molda um desenho sônico brisante associado ao shoegaze. Mantendo essa linha, mesmo quando assume frases melódicas distorcidas, Wasting Time, dentro de sua linearidade estético-harmônica, oferece generosos contatos com a melancolia e pitadas de uma nostalgia de caráter visceral, questões amplificadas tanto pelo timbre afinado e agridoce do vocalista quanto pela forma com que o mesmo interpreta os versos líricos.

Bem diferente do que foi observado na composição anterior, aqui o ouvinte é colocado, desde o início, em contato com uma estrutura rítmico-melódica pulsante que conduz à percepção de movimento e, inclusive, de um leve e contagiante incitar de sensualidade. Mergulhando em uma espécie de mistura equilibrada entre indie rock e rock alternativo, a faixa é agraciada por uma brisa morna que traz consigo um curioso despertar de ânimo. Enquanto a guitarra solo se coloca na dianteira melódica a partir de uma postura levemente contorcionista, a faixa-título flui para um refrão de caráter explosivo cuja essência sônica muito rememora aquele toque popeado agressivo do Green Day.

A introspecção vem com força a partir da forma como a guitarra se apresenta durante o processo introdutório. Mansa, delicada e com um frescor cabisbaixo tocante, o instrumento mergulha o ouvinte e põe o ecossistema em contato com uma energia melancólica inescapável. Mesmo que traga consigo sutileza e um perfume doce reconfortante, a faixa, em meio ao seu inicial minimalismo estético-estrutural, dispara suspiros carregados de um pensar penoso. O interessante, porém, é observar que Madeleine, diante de uma levada rítmica com graciosas influências do folk, difunde pelo ambiente notas de uma paixão romanceada emaranhada em decepção, tornando-a uma balada triste.

Saindo dessa introspecção melancólica pungente, o Patience Please encaminha o ouvinte para um ambiente que lhe injeta certo grau de elevação energética. Por meio de um riff de guitarra sincopado, a faixa pede a presença da bateria, a qual prontamente atende ao chamado. Se pronunciando a partir de um andamento rítmico pulsante e firme diante de sua cadência em 4×4, o instrumento dá movimento e uma noção de firmeza que engrandece a experiência sônica de uma forma notável. Bebendo de requintes de estridência diante da distorção da guitarra, Pretend tem a força de uma faixa-single que explode em um refrão pautado na atmosfera e na sonoridade crua do britpop. 

Miles Away é um EP de experiências sensoriais distintas e, por vezes, complementares entre si. Explorando, ao mesmo tempo, ambientes de uma introspecção completamente entorpecente e melancólica, o material proporciona ao ouvinte instantes de um perfume adocicado envolvente e de uma textura amaciada não apenas contagiante, mas igualmente reconfortante.

Se aventurando pela transição estético-estrutural entre indie rock, rock alternativo, pop e britpop, o EP usa da estridência como um importante elemento sensorial. Claro que, nesse sentido, até mesmo a precisão da bateria auxilia na obtenção de força e consistência sônicas, detalhes muito bem observados especialmente durante suas quatro primeiras faixas.

Ainda assim, os títulos Miracle e I Want It I Got It, com seus viéses respectivamente groovados e entorpecentes, se tornam peças muito importantes para que Miles Away escancare a sua natureza leve e serena. Um material contagiante e comovente que mistura alegria, tristeza e sensualidade de maneira equilibrada.

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