A guitarra, em sua forma áspera, não produz uma sensação de caos, conflito ou desarmonia. Curiosamente, a partir desse padrão de distorção, o instrumento se lança em meio a uma exploração de sensualidade bastante contagiante que ganha peso, compasso e precisão com a entrada da bateria a partir da estridência da superfície da caixa.
Saindo de um compasso quebrado e encontrando o seu curso em meio a uma levada desenhada sob o andamento em 4×4, a canção é rapidamente respaldada pelas teclas cuidadosamente adocicadas do teclado. A partir delas, que, por muito pouco, não soam sincopadas de forma a rememorar a estrutura do boogie-woogie, a canção acaba mergulhando em um universo harmônico pautado nbo blues, enquanto o contexto geral da obra, abrangendo, aqui, desde a textura até o próprio som, oferece generosos lampejos de southern rock.
Liricamente narrada por uma voz masculina cuidadosamente rasgada, o que rompe com a brevidade de torpor disseminada pela melodia linear, principalmente aquela expressa pela guitarra, a canção alcança algo muito superior ao formato de uma homenagem histórica. Muddy Waters é onde o CAR287 narra a catastrófica cheia do Rio Vermelho em 1997 ao mesmo tempo em que oferece uma espécie de premonição em relação às inundações generalizadas que atingiram o oeste de Manitoba em junho deste ano.
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