Não é difícil que o ouvinte já se veja se introspectando diante da sonoridade proposta pelo despertar da composição. Ainda que em uma boa mistura entre dissonância e melodia, uma combinação proposital que escancara a dualidade das noções de harmonia e desarmonia, a composição soa como uma espécie de abertura, de expansão de consciência. Entre o grasnar da gaivota e uma menção lírica que soa tal como um último aviso de embarque, Two Minutes To Departure consegue explorar uma curiosa melancolia. É como se esse sentimento misturasse dor e um toque de desespero velado que esconde a ideia de que a pessoa prestes a viajar nunca mais será vista.
Diferente da obra anterior, em que o violino foi a estrela absoluta de todos os aspectos arquitetônicos, Lay Down, My Love invade a cena com uma estrutura rítmico-melódica madura. Aromática, lexicalmente delicada e com um toque romântico extasiante expresso por meio da afinação adotada pela guitarra solo, a canção é agraciada por um bom corpo melódico ofertado pelo sonar bojudo do baixo. Crescendo em dramaturgia graças ao andamento rítmico quebrado da bateria, a faixa atinge certo grau de intensidade em razão da forma como o vocalista emprega seu timbre afinado de tom intermediário. Eis aqui um título de natureza introspectiva e de brisas melancólicas aconchegantemente envolventes.
Enquanto o sonar aveludado característico do fender rhodes molda os primeiros instantes instrumentais da obra, o ouvinte tem sua atenção voltada para com a presença de chiados marcantes diante da atmosfera. Esse detalhe mostra que o amanhecer da obra é dotado de crueza e, consequentemente, conta com o lo-fi em sua receita estético-estrutural. Crescendo de maneira a prevalecer uma espécie de frescor curiosa e interessantemente misto entre nostalgia e sensualidade, a canção expressa a new wave como importante alicerce de sua paisagem sônica. Introspectiva e aveludada, When The Lights Go Out segue a ideia sensorial de Lay Down, My Love e esboça um contexto cheio de romantismo, mas com chamativos toques melancólico-nostálgicos.
Enquanto o sintetizador, com sua sonoridade crescente de nuances levemente transcendentais, forma a ideia de um sol surgindo por detrás das montanhas enevoadas ao longe, o ouvinte se deleita perante uma espécie de cama esotérica abraçada por boas doses melancólicas. Vindas graças à maneira com que o vocalista interpreta o enredo lírico, elas estão, aqui, associadas a bons toques de arrependimento. Dramática e inquestionavelmente pungente, Many Days, Many Ways é repleta de lamúria pegajosamente penetrante.
Não que ele seja um disco definido apenas pelo sofrimento, mas My Only Fear Remains Unseen escancara uma espécie de melancolia cavalar diante de seus enredos indiscutivelmente introspectivos. Cheios de dor, menções de ressentimento, arrependimento e até mesmo sofrimento, cada um dos escopos conjunturais das 10 faixas que regem a sua track list leva o ouvinte para um mundo monocromaticamente cinza e lacrimal.
Equilibrado em intensidade, suavidade e, até mesmo, densidade, o material convida o ouvinte a expandir a sua própria sensibilidade em vista da maneira com que constrói suas composições. De caráter cinemático, as faixas que o preenche são dotadas de limiares ambientes que não apenas atiçam a criatividade do espectador, mas o faz criar cenários concretos em seu inconsciente.
Indiscutivelmente melodioso, é verdade, My Only Fear Remains Unseen chama a atenção pelo seu grau de profundidade emocional. Pela forma com que funde torpor, dor e conforto. Misturando nuances estruturais inerentes ao post-rock, à new wave, ao rock alternativo e à música ambiente, o disco, apesar de dar destaque aos seus quatro primeiros títulos por eles trazerem, com mais clareza, os apontamentos dados até aqui, é, em sua totalidade, um diálogo pungente sobre memória, melancolia e aos últimos sinais de amor. Aqui, o Letters From A Dead Man apresenta uma viagem intimista pelos últimos momentos de vida de um homem.
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