Neon Circuits and the Mission of Hope | Com novo álbum, Blueprint Tokyo aborda temas como interconexão, resiliência e transformação

Enquanto o ouvinte é colocado em contato direto com uma new wave que disseca e imprime em sua sonoridade uma interessante mistura de The Smiths com Depeche Mode e New Order, a calmaria vai se tornando o mote da energia sensorial distribuída pela canção. Engrandecida em razão da interpretação lírica sussurrante assumida pelo vocalista, esse caráter sensorial acaba, invariavelmente, tangenciando noções de torpor e introspecção conforme explora, inclusive, delicadas nuances de sensualidade. De natureza fluida e fresca, Say Anything, acima de tudo, oferece uma arquitetura conjuntural bem trabalhada, em que ritmo, melodia e harmonia criam uma só camada regida pela suavidade.

O riff da guitarra, de andamento manso e delicado, em contato com um sonar agudo e levemente adocicado vindo de uma origem sintética, faz com que a canção, desde seu início imediato, permita que o ouvinte caminhe por terrenos entorpecentes. Ainda que ritmicamente sincopada, a faixa não consegue fazer com que a consciência tenha o mesmo espaço que a fuga da realidade. Curiosamente, porém, nos abruptos instantes de racionalidade, os espectadores têm acesso a um refrão lexicalmente atraente. De caráter radiofônico, o trecho, ainda, desfila uma interessante intersecção entre o puro entretenimento e uma sensorialidade sensualizada. Sob essas vestes, as quais, por vezes, chegam a flertar com um rock alternativo ao estilo U2, Replicants se configura como um produto de arquitetura viciante.

Aqui, o ouvinte, logo de início, se vê se relacionando com uma linha percussiva firme, precisa e concisa. De pulsos marcantes, é interessante perceber como a bateria, mesmo desconhecendo do escopo melódico como um todo, acaba assumindo a função de disseminar não apenas um estado de consciência, mas uma espécie de persona cheia de compaixão. Isso se torna evidente ao passo que Take My Breath, gradativamente, escancara um quê de agonia através da interpretação lírica assumida pelo vocalista. Por sinal, mesmo quando esse adquire um tom empostado, não consegue esconder os ímpetos de desconforto emocional que abraçam o seu interior.

De sons ambientes que, através de burburinhos e conversas paralelas, passam não só a ideia de crueza, mas uma percepção orgânica e até humana, a canção leva o ouvinte para um ambiente em que o instrumental, melódico e com uma harmonia curiosamente renovadora, propõe um agradável senso de bem-estar. Com boa participação da guitarra, A Whole New Life consegue prover uma paisagem sonora bela e com um charme que leva o ouvinte a se observar em uma atmosfera tão equilibrada que chega a parecer até mesmo utópica. É como a captura da transformação e, consequentemente, de uma ideia inerente ao amadurecimento.

Pode se dizer que a suavidade seja o ingrediente sensorial principal do álbum. Porém, seria injusto lhe dar todo o crédito. Afinal, ele pode até ser o protagonista, mas também o é a raiz de diversas outras emoções que são difundidas em Neon Circuits and the Mission of Hope. Êxtase, melancolia, nostalgia e, acima de tudo, torpor, são consequências daquela vivência sensitiva primária.

E o interessante é perceber que o Blueprint Tokyo consegue combinar cada uma dessas sensações a ponto de transformar sua track list em uma espécie de transcendentalidade emocional, algo que fica evidente, principalmente, nas suas quatro primeiras músicas. Por meio de uma delicadeza intensa, de um dulçor muito bem trabalhado através de veias sonoras sintéticas e uma maciez fluida trazida pela percussão, toda a track list do material, porém, permite o experienciar extrassensorial de forma profunda e intensa.

Trazendo a new wave como grande norte de sua natureza sonora, Neon Circuits and the Mission of Hope, ao passo que brinca com nuances introspectivas e até mesmo melancólico-nostálgicas, propõe um dialogar com tom reflexivo acerca de assuntos como interconexão, resiliência e transformação. É assim que o material assume a forma de um incentivador ao autoconhecimento.

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