Desde o seu início imediato, a canção evidencia uma conjuntura de camadas sonoras capazes de lhe conferir não apenas leveza, mas um aroma graciosamente envolvente que levita o ouvinte enquanto lhe oferece brisas de uma nostalgia reconfortante. Ao passo que o teclado entrega um dulçor ligeiramente ácido na base harmônico-melódica, a guitarra, com a sua afinação serena, oferece singelos lampejos de uma sensualidade curiosamente compassiva. Diante de um andamento rítmico manso em meio à sua cadência 4×4, Houston ainda permite a nítida identificação do groove do baixo sugerindo uma densidade equilibrada à sua conjuntura sonora, que se felicita da presença de um timbre feminino agudo e brandamente açucarado vindo de Rachel Swain. Entre o uso de lap steel e um clima de bucólica simplicidade, o folk se faz presente em sua forma clássica.
Se na canção anterior o folk se apresentou com certa maestria, durante o presente contexto ele não apenas aparece, mas, especialmente, grita e exige a sua monarquia. Isso acontece desde o início da composição, quando o violino se contorce com sua valsa adocicada desenhando o despertar da esfera harmônico-melódica. Tornando o ambiente aromático, mas respaldado por ousadas brisas melancólicas, a faixa chama a atenção pelo seu compasso rítmico mais pautado na roupagem do blues e seu viés tradicionalmente introspectivo. Com direito aos uivos da guitarra e uma base rítmico-melódica pulsante a partir da sincronia entre bateria e baixo, Good For Nothing traz Rachel em sua performance mais limpa, proporcionando a degustação mais profunda do toque de veludo e sentimental de sua voz.
Depois que a bateria e o baixo se encontram por breves instantes, a composição flui para um instrumental delicado que parece esconder o toque gracioso da acidez adocicada do wurlitzer preenchendo os espaços da base sonora. Com uma maciez envolvente e de nuances confortavelmente entorpecentes, a faixa faz com que a sua doçura logo se confunda com um clima melancólico-nostálgico exortado, principalmente, pela interpretação lírica assumida pela cantora. Introspectiva e de silhuetas reflexivas, Ghost caminha por entre uma linha harmônica linear, mas que evidencia traços de um onírico que destaca a falta e a saudade delineadas em cada palavra de seu enredo lírico.
Matematicamente pulsante e trazendo o protagonismo do violão diante de sua melodia, a composição que se inicia se mostra aventurada na exploração da simplicidade estética. Ainda que sincopada na questão do andamento rítmico, ela consegue ser hipnótica a partir da linearidade de sua sonoridade. No que tange à interpretação lírica, em sua forma suavemente ondulante agraciada por momentos em que o falsete se apresenta, ela transforma toda a energia sensorial da composição, especialmente durante o refrão, momento em que despeja carinho, ternura e uma textura de aconchego que transcende o limite do som. Fortune, com sua simplicidade envolvente, encanta e conforta tanto quanto um anoitecer frio aquecido pelas chamas da lareira.
Saindo da delicadeza e se libertando da introspecção associada à ternura, à melancolia e à nostalgia, o que acontece aqui é uma experimentação inédita. Não apenas a malandragem se faz presente a partir da natureza levemente trotante da guitarra, mas, especialmente, uma sensualidade de inclinações contagiantemente debochadas e cínicas. Flertando com uma roupagem blues rock a partir da união rítmico-melódica estruturada pela guitarra e pela bateria, a faixa combina uivos trepidantes com um caráter sincopado que lhe fornece precisão e cadência. De baixo igualmente sensual, mas com a presença mais marcante até o momento em razão de sua audição elevada que o iguala aos demais instrumentos, Mama, Whatdtya Say combina compasso, ecos melódicos e uma sonoridade swingada envolvente.
Ao se atentar à audição de Neon Lullaby, o ouvinte mergulha em um universo regional. Indo diretamente na veia do interior estadunidense, o espectador se depara com toda a sorte musical que sua atmosfera pode sugerir. Do puro blues ao folk, o material explora não apenas a sensualidade, mas se aventura, de igual forma, na introspecção, na melancolia, na nostalgia e em um gracioso cenário terno-compassivo.
É assim que a figura de Rachel Swain vai se formando no imaginário e na percepção do ouvinte: uma cantora de abordagem delicada, mas capaz de apresentar certa versatilidade ao alçar voos rumo a um aspecto mais swingado e propriamente comercial. Tais apontamentos são muito bem perceptíveis no decorrer das cinco primeiras faixas do disco, mas, ainda assim, Shame recebe mesmo grau de destaque por trazer o honky tonk naturalmente festivo e dançante. É assim que Neon Lullaby transforma o desgosto em sobrevivência.
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