No Paradise | Malkotron lança álbum baseado na estética progressiva dos anos 70 aos 90

Pode até parecer haver um erro na reprodução, mas o silêncio de fato impera durante os mais de 20 segundos da introdução até que o primeiro sinal sonoro se evidencie. Com certa delicadeza e respaldado por chiados insistentes presentes na base, ele se mostra um tanto uivante e envolto em uma esfera sintética sem um resquício sequer de intenção apelativa. Introspectiva e se tornando, inclusive, entorpecente em razão da essência gutural, mas sem peso ou densidade, Woeful Dusk parece dar vida ao soturno e ao ambiente que abriga o caos do inconsciente disfarçado em nuances de equilíbrio. Contudo, assim que o teclado surge em meio a notas duplas que sugerem a dramaticidade, a canção permite a presença sintética do som dos violinos em união com uma guitarra de riff bluesado e aveludado que destaca a sua própria vulnerabilidade.

Saindo do instrumental introspectivo e latente que foi a canção anterior, o álbum rapidamente coloca o ouvinte em contato com um ecossistema sonoro de natureza sintética diante de suas texturas ácidas que respaldam a simultânea entrada do vocalista. Com um timbre afinado em um tom intermediário, ele posiciona seu tom acima da rispidez do sintetizador de forma a exortar indicações de uma reflexão com traços interessantemente contemplativos. De traços psicodélicos, Sleep Is Free explora o espaço sombrio do inconsciente. O medo, a depressão, a insegurança. Um universo em que a escuridão simplesmente acolhe.

Sua introdução é gradativa, mas logo evidencia uma melodia mansa, fresca e agradável conduzida pelo violão de forma a exortar uma sonoridade cuidadosa e de traços curiosamente nostálgicos. Abraçada por uma base sintética, mas valsante em razão da reprodução do som dos violinos, o que acontece é a demonstração de uma fragilidade envolvente com poucos momentos de mudança em sua cadência. Abraçada por uma letra vivida por uma interpretação lírica teatralmente dramática e reflexiva, a faixa ganha pressão e precisão com a entrada da bateria, elemento que fornece boas doses de movimento e uma presença de firmeza sônica evidente. Unindo guitarra e teclado em solos quase uníssonos, Lost And Found, na forma da canção mais longa do disco, com a sua marca superior a 14 minutos de duração, a faixa, bem dividida entre o protagonismo orgânico e o digital, traz um enredo profundamente pensante que convida o ouvinte a raciocinar o declínio social em razão da ganância.

Introspectiva, dramática e melancólica por conta da tonalidade alcançada pela união do violão com o teclado, a faixa exibe uma linearidade capaz de trazer consigo fortes estímulos entorpecentes que capturam o ouvinte com evidente facilidade. Delicada e abraçada por um quê nostálgico emotivo que chega a arrancar lágrimas do espectador, Dusty Beams Of Light, tal como aconteceu na faixa anterior, bebe de uma rígida linearidade com apenas alguns momentos de reconfiguração em sua forma. Ainda assim, pela sua energia tocante, ela disfarça essa percepção sequencial em meio a um diálogo que aparenta destacar os efeitos da culpa no indivíduo.

Para um álbum, ele pode até ter um número enxuto de músicas, é verdade. Contudo, a sua duração pode configurá-lo perfeitamente como um disco e não um simples EP. Com mais de uma hora diante de um volume de nove títulos, No Paradise traz o rock progressivo em sua mais pura essência. 

Sempre trazendo obras com introduções minimalistas para depois crescer de forma gradativa e evidenciar uma grandeza estético-estrutural penetrante, o material mostra que o Malkotron sabe muito bem trabalhar as texturas de que dispõe e fundir nuances sensoriais a partir de emoções cruas e sinceras. Com o chiado também como um importante ingrediente de sua receita conjuntural, o disco traz consigo também o lo-fi na conta de suas paisagens sônicas aventuradas.

Intimista, dramático e entorpecente, No Paradise ainda guarda One Bad Day como outra importante obra de sua track list. Com seus pouco mais de 11 minutos de duração, a faixa mistura sons ambientes com insinuações do sintetizador para lhe angariar ideias de pungência. Harmonicamente linear, ela tem um quê cinematográfico evidente que destaca as linhas líricas como outra forma de garantir fluidez. Com ela na soma de destaque, No Paradise se apropria do silêncio como superfície para lhe assegurar paisagens atmosféricas.

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