Norueguês Knut Kvifte Nesheim anuncia Graosido, seu novo álbum. Vem ouvir!

O sonar do batuque do tambor, em companhia com um delicado e suave tilintar do triângulo em uma sintonia afiada em relação ao ritmo por ele estruturado, recebe o ouvinte. Através de um ambiente regido por uma introdução de essência introspectiva e lexicalmente sensorial, a faixa é envolta em um ligeiro crescendo com a inclusão do piano. Por meio de suas notas agudas e doces colocadas em meio a pausas que incutem uma percepção dramática, Lønahorgi explora uma delicadeza aveludada e aromática, mas de brisas curiosamente melancólicas capazes de entorpecer o espectador. Isso acontece principalmente no instante em que o instrumental se vê agraciado pela presença de fatores como trombone, clarinete e bateria de forma a construir um alicerce surpreendentemente jazz.

O interessante, aqui, é que a performance dos instrumentos de sopro, ao mesmo tempo que sugerem uma sensorialidade inerente ao caráter de delicadeza, trazem consigo brisas de uma crueza capaz de salientar o sabor doce e de leve frescor sugerido até então. Porém,  que de fato marca a paisagem de Grøvona é a forma como a flauta lhe confere uma identidade nativa penetrante. Por meio dela, o ouvinte consegue se perceber no coração de uma mata virgem em contato direto com seu espírito, sua máxima identidade purificante e viva.

Macia, aromática e charmosa, a presente obra é, desde seu início imediato, marcada por uma silhueta sensual e provocante, mas não necessariamente apelativa. De atmosfera retro ao levar o ouvinte de volta à década de 1920, a composição oferece um jazz com surpreendentes incursões psicodélicas perceptíveis por meio de sonoridades de cunho experimental. Hipnotizante, Tjørni é regida por uma sonoridade estridente que, sem contradição, entorpece e envolve o espectador com sua ambiência fantástica e fantasiosa. 

O que acontece na presente composição é o desenvolvimento de um instrumental propositadamente truncado. Piano, trompete, bateria, saxofone, flauta e clarinete fazem de Taoe muito mais do que simplesmente a canção mais longa de Graosido. Esses instrumentos a fazem ser a prova léxica de experimentalismo, improviso e espontaneidade. Sem medo de soar de maneira dissonante e, às vezes, fora de compasso, a faixa mantém a base jazz defendida desde a música anterior, mas com um toque extra de confiança e, até mesmo, empoderamento. Independente disso, Taoe chega a um ponto que amadurece e arregimenta o jazz como seu verdadeiro quadro estético.

Por meio de frases curtas entoadas pelo piano, a canção é capaz de atrair o ouvinte por meio de uma sensorialidade contagiante e de alegria embrionária. Construída inicialmente apenas com o uso do instrumento, o que, consequentemente, lhe confere uma identidade minimalista, Kave explora, tal como na canção anterior, a ousadia de estruturar sonoridades truncadas conforme o instrumental vai ganhando novos elementos. Ainda assim, é inevitável a identificação da maciez, do dulçor e da gentileza em meio à sua estrutura rítmico-melódica.

Sim, Graosido é um álbum completamente instrumental. Porém, é difícil, e até injusto, defini-lo com apenas uma palavra. Afinal, o material se vale pela sua identidade ousada. O atrevimento, aqui, está inerente ao fato de que existem construções de texturas rítmico-melódicas capazes de serem, ao mesmo tempo, cruas e macias.

Ainda assim, o álbum é marcado, de maneira incontestável, pela forma como mistura trechos de aparências dissonantes e descompassadas com outros em que o instrumental adquire perfeita sintonia ao ponto de desenhar um jazz colorido, aromático e envolvente. Cheio de sutileza e com um frescor adocicado que consegue ser entorpecente, o disco não seria o que é sem a presença da proeminente e consistente da orquestra OJKOS.

Por mais que suas cinco primeiras obras se sobressaiam perante as faixas Fela Ver e Vadlasletta, também essas duas últimas composições fazem do álbum um produto charmoso, inquietante e poderoso. Poderoso porque ele é perfumado e ousado. É sensual e provocativo, mas também é melancólico e dramático. A prova de que Knut Kvifte Nesheim criou uma viagem sensorial profunda, irresistível e necessária.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/48XEwop9iu4fep5yhUzlt8

Site Oficial: https://www.knutkviftenesheim.com

Bandcamp: https://knutkviftenesheim.bandcamp.com/album/graosido