One Step At A Time | Michelle Lynne lança seu álbum de estreia

O piano é o instrumento responsável por dar vida à canção em sua integridade e plenitude. Expondo uma melodia harmônica cheia de ternura e de uma sensorialidade extasiante que beira um torpor curiosamente consciente, o instrumento, ao mesmo tempo em que oferece um contexto de delicadeza, alça longos voos em relação à intenção de proporcionar brisas tanto introspectivas quanto reflexivas. Aromática e vulnerável, In The In-Between – piano version destaca a versatilidade e, também, a vulnerabilidade desse instrumento de identidade erudita, mas que é capaz de se apropriar da modernidade do pop com o sentimentalismo apurado do passado.

Doce e aromaticamente floral, a canção se destaca por explorar uma paisagem sônica mais alegre e ligeiramente expansiva. Delicada e, ainda assim, capaz de ser recebida de forma incontestavelmente contagiante por parte do ouvinte, a faixa explora um andamento melódico amaciado e frágil, mas não necessariamente vulnerável. Ainda que chegue a soar um tanto linear, Everglow é marcada por ter uma estruturação bem definida, com versos, pré-refrão e refrão muito bem construídos de forma a oferecer certa noção de movimento e fluidez ao espectador. 

Eis então que chega uma composição com uma estrutura surpreendente. O piano não mais detém do absoluto protagonismo. Afinal, aqui, desde o processo introdutório imediato, Michelle Lynne permite que o ouvinte se perca, se delicie e mergulhe perante a inserção de seu timbre no time de incentivos sônicos. Singelo e firme, ele é usado de forma a dar vida a um escopo lírico que pede por uma energia reflexiva pungente. Não é à toa que, a partir dessa percepção, Hold On mergulhe em um ecossistema repleto de dramaticidade e sentimentalismo, detalhes que são delicadamente amplificados pela presença de um corpo rítmico simples, mas primordial para que a faixa adquira as necessárias noções de densidade e precisão que permitam que o visceral e o soturno criem uma experiência sônica intensa.

É interessante perceber que, a partir dos dedilhares do piano que regem a construção do processo introdutório da obra, a canção seja regida por um toque de seriedade um tanto fria. É quase como uma espécie de autodefesa contra eventuais sofrimentos que venham a afligir o corpo, a pele e a alma. Ainda assim, a melancolia que é profundamente escancarada pelo piano ainda consegue surtir em um efeito de serenidade e suavidade que equilibram certo quê de sisudez que toma conta do espectro harmônico-melódico. Quando Michelle assume o devido controle do microfone, sua voz, firme, e sua interpretação lírica pinçante, exibem uma conjunção de brisas nostálgico-melancólicas que é marcada pela dor, pelo pesar e pela decepção. Eis aqui, portanto, uma obra de identidade incontestavelmente pegajosa e lamuriante.

De fato, One Step At A Time vem fortalecer o fato incontestável de que o piano é um instrumento completo e extremamente versátil. Por meio dele, o álbum alcança patamares de uma delicadeza quase espectrais, ao mesmo tempo em que é capaz de amplificar as dores a níveis de uma sensibilidade pinçante.

Porém, engana-se quem pensa que esse é um álbum instrumental. Ainda que seja, definitivamente, um produto de sonoridade profundamente minimalista, ele não se baseia apenas e tão somente na presença do piano. Ele conta com a presença da voz firme e sensitiva de Michelle Lynne para conferir às suas canções camadas sensoriais palpáveis e tangíveis.

Juntos, portanto, voz e piano fazem com que o disco exiba um diálogo de coração ferido, de lamentação. De decepção. Ao mesmo tempo, a delicadeza estrutural chega a suavizar a intensidade da melancolia e o frescor cria certa leveza às brisas nostálgicas que tomam conta dos ambientes sônicos que compõem o produto. 

Ainda que dê maior destaque às quatro primeiras faixas que formam a sua track list, o disco traz outros importantes triunfos. A dysneyresca In The In-Between, a charmosa e onírica Jeux D’eau, com a sua introspecção quase entorpecente; e a alegre e lúdica Au Bord D’un Source, fazem de One Step At A Time um álbum de estreia belo que conecta os temas de cura e transformação.

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