Only God Can Love Me | Barefoot River anuncia seu álbum de estreia

A canção tem seu início marcado pela adoção do efeito fade in. Com sonoridade crescente, ela evidencia nuances instrumentais de sopro que, curiosamente, fazem o ouvinte rememorar a paisagem sônica mexicana do mariachi. Porém, assim que a camada lírica tem seu início anunciado, a verdadeira face da obra é exposta. De cadência sincopada perante um timbre masculino levemente azedo e de identidade intermediária, o viés verbal mostra que Mercy se trata de uma canção rap dramática que, audaciosamente, não se apoia em elementos rítmicos. Isso lhe confere uma essência um tanto aérea e valsante, o que, de fato, é uma atitude bastante ousada.

Diferente daquilo que foi visto na canção anterior, nesse novo ecossistema, o ouvinte, desde o início, tem contato com frases rítmicas bem definidas e amaciadas. A partir daí, já se possui uma boa noção de precisão, detalhe esse que se funde tanto a uma sonoridade sintética proveniente do sintetizador que ainda se aventura na reprodução mínima do dulçor ácido do hammond. Com um toque ligeiro de harmonia, Blue Eyes, invariavelmente, leva o ouvinte a vivenciar um ambiente de nuances psicodélicas marcantes. Na companhia de Blu, a canção também se apoia em energias dramáticas obtidas perante uma cadência lírica estruturada em mid-tempo e cheia de rimas.

Aqui, o inesperado acontece. Surpreendentemente, o ouvinte é colocado em contato com uma atmosfera agraciada por uma mistura de sonoridades digitais e acústicas. Diante dos pulsos sincopados da bateria eletrônica existe uma suavidade fresca e swingada em meio a uma textura aveludada vinda da guitarra, o que leva o espectador a experienciar o êxtase do conforto e do aconchego. Essencialmente fresca, mas com direito à presença nítida de uma crueza que apenas salienta as características anteriormente pontuadas, Content acaba explorando ligeiros flertes para com uma vivência romanceada que embriaga a audiência.

Não é só dramática. É pungente, introspectiva. Sofrida. Pela identidade sonora que expõe, a presente composição tira o ouvinte daquela leveza contagiante exposta no título anterior e o coloca diante de um momento de intimismo e reflexão. Não que a obra seja necessariamente pesada, mas ela é agraciada por uma densidade sonoro-sintética que pede um respeito a mais. De enredo lírico propriamente narrativo acompanhado por sons sintéticos do vento em companhia com ligeiros toques agudos ofertados pelo violão como uma forma de oferecer uma rápida leveza, Dead Man Walking amplifica seu tom visceral e dramatúrgico no instante imediato em que o beat e a linha lírica começam a ser desenvolvidas em um interessante uníssono. 

Como um primeiro projeto, Only God Can Love Me mostra muito do caráter, da essência e da proposta do Barefoot River. O material destaca a sensibilidade de uma forma que evidencia a capacidade de fundir o denso e o reflexivo com o leve, o sensual e o romântico. Não é apenas por ser um disco rap que ele tem que ser necessariamente urbano, noturno, bruto e marginal. Ele pode, sim, ser emocional, introspectivo e delicado. Sem dúvida, esse é o maior recado do presente material.

Não é de se espantar, portanto, que esses detalhes sejam muito bem explorados na evolução presente nos três primeiros títulos da sequência de faixas do álbum. Afinal, nelas o Barefoot River esboça a sua própria vulnerabilidade perante ambientes sonoros que são até mesmo experimentais a seu modo. Claro, porém, que Only God Can Love Me merece atenção por inteiro. Até porque, integralmente, ele soa como uma espécie de prece. Uma súplica por atenção, por ser ouvido. Percebido. Um simples pedido por amor e compreensão vindo de um indivíduo vulnerável, mas de essência boa.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/3dhqO2oaEbErhXpsqMUyGO

Twitter: https://x.com/barefoot_river