Apesar do timbre rasgado e levemente nasal do vocalista, fator que se anuncia logo nos primeiros sinais sonoros a romper o silêncio e banhar o contorno introdutório, a composição destaca uma guitarra de melodia amaciadamente suspirante capaz de entorpecer o espectador. Aveludada em sua máxima essência, portanto, é ela o elemento capaz de oferecer um senso gracioso de conforto perante o ecossistema em formação. Construindo um alicerce sensorialmente brisante, o instrumento é simultaneamente respaldado pela companhia tímida, mas necessária, de uma bateria que desenha um ritmo de natureza extremamente frágil e intimista. Diante de um baixo igualmente tímido, mas notado a partir de seus grooves minimalistas e encorpados, Coming Down bebe de uma estrutura linear que, felizmente, abraça o ouvinte de forma a tirá-lo da consciência com a sua tomada simplesmente alucinantemente branda.
Aqui é a bateria quem puxa a introdução. Diante de uma levada rítmica sincopada e ligeiramente ecoante, a faixa vai explorando, também no contexto melódico, uma introspecção convidativa e aconchegante. Longe do drama e da pungência, o que a canção vai elaborando é simplesmente a sensorialidade de uma sensualidade associada ao caráter da maciez e do aconchego. Inclusive, pela textura do dedilhar esboçado pelo violão, não é difícil que o ouvinte se deixe embriagar pelo âmbito da sedução. Aromaticamente intimista, a faixa-título vai ganhando contornos valsantes com a introdução do teclado representando o frescor amaciado dos violinos. A partir daí, o romantismo e a paixão se tornam ingredientes que não deixam existir um instante sequer para serem ignorados. Banhando toda a identidade da composição, portanto, o amor molda a influência estético-estrutural da MPB e perfuma o compasso acústico que faz, da obra, um produto de pura sinceridade emocional.
Bem diferente do intimismo envolvente e apaixonado explorado durante a execução da canção anterior, a presente faixa se aventura em meio a nuances de sensualidade, malandragem e um toque interessante – e atraente – de deboche. Se destacando por dar generosos holofotes ao baixo, instrumento que ocupa a camada instrumental superior com seu groove essencialmente grave, a faixa tem, na guitarra, não apenas o fator da melodia, mas aquele elemento a entregar boas doses de uma acidez ligeiramente aveludada. Até mesmo a forma como Mark Moule interpreta o enredo lírico – com tons mais rasgados e livres de certo quê de cortesia – apresenta uma mudança considerável. Ardente e provocante em meio ao seu flerte com o universo da música country, Where’s The Money Gone? explora flertes com o soul e o R&B enquanto suga os nutrientes de sua estrutura linear.
Mansa, delicada e aromática graças à maneira com que o violão toma a frente do enredo melódico, a canção, desde seu início, é agraciada pela presença de pulsos rítmicos firmes desenhando o compasso e, portanto, a cadência a ser seguida. Pulsante e melódica de um jeito interessantemente truncado, a faixa se destaca por trazer, especialmente no que tange à interpretação lírica, boas doses de uma melancolia inescapável. Ganhando texturas mais abertas, mas sem interferir em seu caráter profundamente introspectivo, Killer se apoia na presença da guitarra para obter novas sensações e uma noção de movimento necessária, uma vez que a linearidade estético-estrutural é, aqui, dominante. Reflexiva e entorpecente, a faixa inclusive se destaca pela sua identidade minimalista.
Ao percorrer a trajetória ofertada por Only Love, o ouvinte se depara com ambientes da mais pura introspecção. Lugares em que a delicadeza domina, o veludo impera e a reflexão convida. Cheio de um frescor suspirante que traz, com ele, lampejos de uma terna melancolia, o EP é também abraçado pelo senso lamurioso da nostalgia, causando a construção de um profundo ecossistema sentimental.
Mesmo diante de silhuetas lineares no que tange ao ritmo, especialmente, o EP consegue ofertar movimento diante das modulações vocais assumidas por Moule. Inclusive, as texturas ásperas entregues tanto pelo seu próprio timbre quanto por determinados riffs de guitarra, o ouvinte consegue degustar as superfícies disponíveis de forma inteiramente lúcida. Diante disso, Only Love se mostra um material que encapsula a autenticidade e a energia crua que refletem a visão artística do músico, apesar de suas fontes limitadas.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/7MhJyhgAr9PNjUcomzptWP

