Peter Daniel apresenta seu novo e poderoso single Come Back Together. Vem ouvir!

É até bonito a forma com que o hammond se coloca em cena. Com sua acidez adocicada característica, o instrumento, muito mais do que proferir o nascimento de escopos sensoriais baseados na sensualidade, propõe o alicerce de uma harmonia penetrante em meio a um cenário jovem que, portanto, se encontra em processo de lapidação.

Enquanto o instrumento vai ocupando a atmosfera com um protagonismo inabalável que soa como uma espécie de monólogo em forma de jam session, a bateria, com toda a delicadeza e senso de fluidez, vai ocupando, com surpreendente educação, a camada rítmica. Com um compasso repicado que rapidamente favorece ao ouvinte a percepção de que a composição é agraciada por uma base jazz, o instrumento também se torna o responsável por colocar em cena qualidades como consistência e precisão.

Nesse ínterim, a guitarra ocupa sua posição na função de construir o escopo melódico. Com seu riff agudo de caráter aveludado, o instrumento chama a atenção por, diante de sua leveza suavemente swingada, comunicar brandas influências estruturais para com a paisagem do reggae. Rapidamente, porém, outro elemento surge. Com seu sonar estridente, encorpado e delicadamente grave, o saxofone, muito além de romper com o estado de torpor até então enraizado pelo desenho sonoro, deposita vivacidade na esfera harmônica.

Com o instrumento assumindo a função de protagonista no que tange a harmonia, a canção é presenteada com momentos de solo que a tornam mais contagiante e, portanto, envolvente. Entre trechos em que executa pequenos duetos sincrônicos com o hammond, o saxofone prova a sua máxima imponência por meio de uma postura que, apesar de amaciada, traz uma admirável imponência.

Agraciada por momentos de uma conjuntura estrutural capaz de exortar uma leveza que, cenograficamente, consegue colocar o ouvinte diante de uma praia deserta em um entardecer de verão, a faixa chama a atenção por poder oferecer uma leveza como forma de provocar a despreocupação e o desestressar. 

O que também chama a atenção no decorrer da desenvoltura da obra é uma certa dificuldade em identificar a presença do baixo diante da paisagem melódica. De postura tímida, o instrumento pede muita atenção e concentração, por parte do ouvinte, para conseguir ser notado com seu groove encorpado preenchendo a base melódica.

Misturando, então, pitadas de reggae com sensos de torpor envoltos em atmosferas que beiram a psicodelia diante de uma base jazz, Come Back Together mostra a flexibilidade e a química existente entre Peter Daniel e o restante dos músicos. Uma faixa instrumental feita para ser apreciada e vivida em sua plenitude.

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