A faixa é daquelas que surpreendem o espectador desde o seu início imediato. Madura perante o seu formato sonoro misto e ritmicamente sincopado. Agraciada por diversos elementos, ela traz consigo uma vivacidade swingada e expansiva que, curiosamente, é moldada na sintonia interpretativa entre o som e a verborragia. Afinal, aqui, a sonoridade é igualmente pronunciada em alto e bom tom pelo corpo vocal, que, no caso, consiste em uma voz feminina agradavelmente aveludada e de traços delicados. Perante essa identidade conjuntural, a faixa-título é marcada por um instrumental com base no jazz com protagonismo do saxofone e da bateria em seu compasso repicado. Esses elementos, servem como uma base sólida para um lirismo audaciosamente construído de forma inteiramente onomatopeica.
É interessante como a sensualidade consegue ser provocativa sem necessariamente assumir uma postura apelativa ou mesmo escrachada. Alcançada pelo instrumental que rege o despertar da composição, essa sensibilidade é vista, aqui, diretamente associada a um curioso e atraente intimismo que denuncia um compasso sincopado irresistivelmente atraente. De base atmosférica e destacando tanto o veludo da guitarra quanto o andamento rítmico proposto pela bateria, Cobalto é respaldada por um composto lírico curiosamente provocativo em razão do tom suavemente sussurrante adotado pelo vocalista. Com seu timbre afinado e encorpado perante a pronúncia dos versos com base no italiano, ele faz da composição uma faixa não apenas atraente, mas esteticamente irresistível.
O atmosférico continua com certo destaque perante a paisagem sugerida nessa nova música que se vê em processo de amadurecimento. Delicada, introspectiva e com um frescor que não esconde o seu poder amorfinante, a composição traz uma somatória de elementos que torna a sua sonoridade rica e suavemente complexa. Com direito à presença áspera do shaker, do toque opaco do atabaque e da bojudez do baixo, Borea ainda se permite experimentar uma camada de sensualidade bastante amaciada por parte do saxofone. Leve e esvoaçante, a canção se mostra um instrumental com momentos de crescente energia que a tornam um produto vividamente marcante.
Ela não se destaca apenas pelo seu clima de suspense. Seu intimismo propõe tensão e, consequentemente, um viés sensorial desconfortável que deixa o ouvinte em estado de alerta. Agraciada pelo toque místico da agudez adocicada daquilo que parece ser a flauta de pan, bem como pelos batuques opacos do atabaque criando um contexto folclórico, Capo Giuseppe explora um contexto emocional que mistura melancolia e resiliência diante de breves versos líricos que propõem a reflexão enviesada na pungência e na necessidade da maturidade da consciência.
Sem dúvida, ele é um disco rico. Rico em textura, mas também em emoção e em sonoridade. Ainda que pareça esteticamente minimalista, Previsioni Del Tempo Incerto se usa de seus elementos para alcançar patamares de profunda reflexão no espectador sem necessariamente precisar do auxílio propriamente verbal, trazendo, assim, um ponto de audácia em seu formato.
Combinando jazz com nuances folclóricas penetrantes, ele consegue ser suave, melodioso e harmônico ao mesmo tempo em que pincela, em seus ecossistemas, a densidade, a melancolia e as energias de rechaço. Inclusive, nesse aspecto, é até interessante observar como os seus contornos tribais auxiliam na obtenção de uma maturidade necessária por parte do ouvinte.
Dentro de sua vasta track list, ainda que venha com destaque para as suas quatro primeiras obras, o material, diante de seus 18 títulos, fornece outros materiais que cooperam, mesmo que em menor grau, com a garantia de uma energia intimista e, também, sensual. Pigalle, com protagonismo do saxofone e da viola, bem como na presença de uma voz feminina fresca, é um desses exemplos. Città Futura, por outro lado, ganha enaltecimento em razão de sua natureza ritmicamente sincopada e seu contexto sonoro sensualmente envolvente. Já La guerra è finita é inserida nesse meandro em razão do lirismo sensual, corpo melódico denso e nuances esotericamente progressivas. A partir também delas, Previsioni Del Tempo Incerto reflete as dramáticas mudanças vivenciadas pelas pessoas na atualidade, mudanças essas nunca antes imaginadas como capazes de acontecer.
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