O primeiro som que surge perante a paisagem introdutória é o toque estridente da caixa da bateria sendo pronunciado com uma secura tradicional. Rapidamente, porém, a composição flui para um ecossistema de identidade amaciada e fluida, mas que chama a atenção pela sua identidade groovada marcante produzida especialmente pelo baixo presente na base melódica. Enquanto conquista contornos de uma sensualidade envolvente e contagiosa, A Fox In Hoxton assume um caráter dançante instintivamente estimulante que serve como um alicerce que acompanha um enredo lírico governado por um timbre masculino afinado em seu respectivo tom agridoce. Leve e swingada, a faixa não escapa da sua própria linearidade estético-estrutural, algo que, felizmente, não interfere na sua aceitação por parte do ouvinte.
Aqui a levada rítmica continua esbanjando uma identidade acústica saliente, mas o que aparece de mudança é a cadência midtempo assumida pela bateria. Sincopada e sintonicamente associada ao groove bojudo do baixo presente no alicerce melódico, a faixa garante para si uma fluidez interessante que se forma mesmo perante um aspecto conjuntural sequencial. Trazendo linhas líricas banhadas em reverb, o que faz com que a voz do cantor ecoe por todo o ambiente, causando lapsos de um torpor sem ser pegajoso, Keep It Imperial adquire uma postura introspectiva que suscita uma agradável menção de embriaguez.
Com uma sobreposição de sons sintéticos provenientes do teclado, que aqui parece reproduzir, entre outras coisas, o dulçor ácido e levemente estridente do wurlitzer, é interessante observar como a obra trabalha o seu próprio aspecto macio em meio a uma levada rítmica suavemente sincopada. Com texturas digitais que fornecem interessantes vislumbres da influência da música eletrônica na sua identidade estrutural, My Victorian Poltergeist se desenvolve perante uma sintonia afiada no que se refere à cadência adotada tanto pelo ritmo quanto pelo harmônico e pelo lírico-interpretativo. Agora, o que de fato salta aos ouvidos é a imersão catedrálica na qual a música mergulha durante o refrão graças ao tom gutural dos backing vocals
Seguindo o exemplo da canção anterior, This Primark Jumper oferece, desde o seu início imediato, nítidos sinais da presença do eletrônico no seu contexto sonoro em desenvolvimento. De natureza sintética e levemente tremulante em alguns momentos, a faixa oferece uma paisagem sensorial denotativamente entorpecente e de conotações indiscutivelmente hipnotizantes. Como a composição de duração mais longa de todo o álbum, ela ainda oferece instantes em que o lirismo é construído na forma de um breve dueto que sugere uma camada sensorial de contagiante suavidade.
Diante de uma sequência de 13 composições, o que Proud Of My Postcode entrega ao ouvinte é uma coleção de músicas que trazem diferentes texturas, sendo todas agraciadas por uma saliência groovada admirável. Entre intimismos, torpores e nuances estridentes que simplesmente entregam certo grau de vivacidade ao seu ecossistema, o material traz algo irreverente na sua estrutura, que é a influência maciça da música eletrônica.
Mesmo diante de desenvolvimentos lineares no que tange aos seus aspectos rítmico-melódicos, o disco traz uma variedade de sons e superfícies, além da própria natureza dos enredos verbais, que suavizam esse caráter por tornarem o material um produto agradavelmente penetrante. Ainda que isso possa ser identificado com mais ênfase durante as quatro primeiras músicas, outros títulos merecem destaque.
Exemplos disso são The Dullest Blade, com o seu ritmo acústico, aspecto seco e cru, além de incursões brisantes; Waterloo Situation, com o emprego do vibraslap durante a sua introdução e uma camada incontestavelmente letárgica; e Brixton Bill em razão do seu aspecto contagiante diante de sonoridades estritamente digitais, mas curiosamente sensuais. Com essas músicas na conta, Proud Of My Postcard oferece um eletrônico retrato britânico e londrino na visão de um músico de Seattle.
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