Révolution | Com novo álbum, franceses do Le Comité Restreint uma odisseia poética

Não é uma coisa que a gente sente todo o dia. O medo e o receio já vêm com força e precisão com elementos minuciosos e sonoridades minimalistas. Com um punch que ecoa livremente por um ambiente de natureza inóspita, a canção vai crescendo com a presença de um violino que se sobrepõe diante de um toque sonoro gutural. Assim, o tenebroso e o sombrio se unem sintonicamente com uma boa dose sensorialmente morfética, fazendo de Morpheus uma canção obscura, mórbida, melancólica e entorpecente em meio à sua paisagem lacrimal.

Bem diferente daquilo com o que o ouvinte lidou na canção anterior, a presente composição, desde seu início, se vale por um caráter hipnótico inebriante e inquestionável. Graças ao sonar agudo quase estridente que acompanha a desenvoltura da faixa de maneira insistentemente linear, o espectador vai sendo despido de sua própria capacidade lúcida. Inclusive, nem mesmo a presença do ressoar do groove unítono e grave do baixo, ou a linha lírica proferida por uma voz masculina quase sussurrante em meio à sua charmosa pronúncia francesa, consegue devolver a consciência do espectador. Narrativa e na forma de um mantra em prol da introspecção, a faixa-título explora os sentidos de uma maneira surpreendentemente transcendental e esotérica.

Ela tem seu início marcado por uma sonoridade gradativa que, consequentemente, vem apoiada no uso do efeito fade in. De natureza sintética, mas de capacidade entorpecente gritante, a faixa vai sendo envolta em um beat seco e curiosamente cadenciado que consegue sugerir brisas de uma sensualidade no que diz respeito às noções de movimento e fluidez. Delicadamente sincopada, Sentinelle é surpreendentemente agraciada pela presença de um escopo rítmico mais desenvolvido que é capaz de destacar um flerte nítido para com a roupagem do trip hop.

Le Gisant surpreende desde seu início imediato. Isso porque, rapidamente, a base sonora da canção é agraciada pela desenvoltura de um sintetizador que faz com que o ambiente se torne algo completamente entorpecente. Com o auxílio do enredo lírico construído de forma sussurrante pelo vocalista, a introspecção é um processo inevitável e o confronto com as próprias essências, uma consequência. Com curiosas nuances sensuais, a canção se vale de uma paisagem extrassensorial proveniente de outro plano, que não o terreno. É como se Le Gisant fosse construída em um ecossistema dimensional distante e com boas doses de um toque espirituoso. 

Eis aqui um álbum que pode muito bem ser definido como algo extrassensorial. Intrigante, surpreendente e inquestionavelmente introspectivo, Révolution é um álbum que, por meio de sua exploração de texturas infindáveis por meio de naturezas sintéticas, leva o ouvinte a lidar com o sombrio, com o mórbido, com a melancolia e com o torpor de maneira simultânea e marcante.

Diante de suas quatro primeiras canções, além de esses detalhes serem facilmente perceptíveis, o ouvinte percebe a intenção do álbum em levá-lo a um processo de autoconhecimento profundo. Afinal, em sua totalidade, Révolution, com seu charme idiomático francês de pronúncias sussurrantes, faz com que o espectador lide com a solidão, mas também se veja na trilha de seu autoconhecimento. Não é à toa que o álbum é entendido como um produto que oferece uma odisseia poética e sensorial.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/3FTlPUikUHSQXSgeT7ediE

Site Oficial: https://www.lecomiterestreint.com