A primeira faixa do material já começa de maneira contagiante. Combinando o dulçor levemente ácido da gaita com o banjo em efeito lap steel, ela já insere o ouvinte em um ambiente de pureza bucólica sem nem pedir licença. Mesmo sem a presença da bateria, a forma como o vocalista imprime o enredo lírico, intensa e, por vezes, visceral, entrega toda a alma e a densidade de Rolling And Tumbling.
Diferente do que aconteceu anteriormente, aqui o espectador é convidado a experienciar uma vivência mais introspectiva e, inclusive, levemente dramática. Enquanto a faixa mantém a arquitetura minimalista apresentada na obra anterior, o lirismo explora, curiosamente, um senso de empatia e de altruísmo por parte do protagonista lírico. Em verdade, porém, o que It Hurts Me Too evidencia é uma natureza verbal romanceada que, de fato, tem como elo o empático.
O clima parece amanhecer festivo. Ainda que cru em sua tomada ligeiramente sensualizante, a faixa traz o violão como protagonista acompanhado, aqui, por um surpreendente compasso rítmico entoado pelas palmas. O bater das palmas, de maneira espaçada, sugere a cadência da obra e, ainda mais curioso, consegue ofertar um senso de movimento diferenciado, além de levemente mais consistente. Com Dust in My Room, o vocalista explora nuances souls na forma como interpreta o enredo lírico, o tornando mais enfático e intenso, ainda que não traga, necessariamente, uma mensagem que peça tamanha pungência.
O protagonismo da nova faixa recai exclusivamente para com o vocalista e a forma como ele emprega sua voz ao dar vida para o enredo lírico. Repetindo a dose experienciada na faixa anterior, em That’s All Right Mama o soul também faz parte do enredo sonoro e, portanto, melódico. Providenciando, novamente, bons sensos de harmonia, a faixa ainda é, felizmente, agraciada por um bom, macio e hipnotizante solo de gaita.
Da forma como o banjo se movimenta, o ouvinte consegue sentir o calor do Sol e a secura da terra que serve de chão. O suor escorre pelo rosto e as pernas estão cansadas, mas o caminho ainda é longo. Essa ideia é transmitida, mesmo que subitamente, durante a introdução. O que acontece, porém, é uma maior participação da gaita na ânsia de promover novos sensos de leveza e dulçor, além de garantir um caráter de movimento não tão cru. Soando como improviso ou mesmo como uma jam bluesada, Hoochie Coochie Man traz a gaita como elemento que vive as emoções líricas tão intensamente quanto o próprio vocalista.
Definitivamente, o que acontece em Roots Of Blues é, como seu próprio nome sugere, uma viagem profunda pelas origens mais intrínsecas do blues. Caminhando pelo folk e seus meandros, tais como o southern rock, o álbum ainda se dá ao direito de misturar a intensidade e a entrega do soul especialmente através das interpretações líricas assumidas por seu vocalista.
É preciso pontuar que o material bebe de um minimalismo no sentido mais estrito da palavra. Dois instrumentos são os protagonistas absolutos. Banjo e gaita dividem, por igual, um espaço capaz de transitar livremente entre melodias introspectivas e harmonias viscerais. Um toque de drama sempre está presente, ao mesmo tempo em que o senso de calor afugenta, quase sempre, as brisas frescas que vêm do horizonte.
Ainda que perceptíveis principalmente através das cinco primeiras faixas de sua track list, Roots Of Blues é muito feliz em sua proposta, fazendo com que todas as suas músicas ajam fielmente ao gênero e recriem suas raízes mais densas. Com direito a performances da gaita tão intensas e viscerais quanto as do próprio cantor, o álbum é um exemplo de sensualidade, densidade e intensidade. A precisão, combinada com o minimalismo estrutural, fazem dele um conteúdo digno da mais ampla atenção.
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