Não há o que dizer sobre uma composição pautada em uma estrutura instrumental enxuta cuja sonoridade caminha suavemente pelo campo do intimismo a não ser categorizá-la como um produto de natureza delicada e, especialmente, entorpecente. Curiosamente, mesmo diante dessa paisagem estética, Vodka Tonic alcança um patamar de sensualidade graciosa a partir da sintonia criada entre o violão dedilhante e os pulsos opacos da bateria. Até mesmo a tomada sussurrante da interpretação lírica assumida pelo vocalista auxilia no engrandecimento da identidade íntima que a canção tanto exalta.
O violão segue sendo um elemento de notável protagonismo. Aqui, no entanto, além de trazer consigo contornos de um singelo swing, ele também é capaz de destacar uma crueza diretamente associada ao lo-fi, tornando a obra em algo não necessariamente bruto, mas de um caráter orgânico exaltado. Cuidadosa e aromática, mesmo diante de sua introspecção latente, Prendersi Cura pode até sugerir certa opacidade em sua sensorialidade, mas o que dela é ressaltado é a fluidez graciosa e amaciada ofertada pelo compasso rítmico entoado pela bateria. Frágil, mas interessantemente aveludado, é ele quem dá a conotação de um movimento fofo a ponto de exalar conforto.
Existe uma base sonora de aparência minimamente sintética que serve como a verdadeira anfitriã da obra que se inicia. A partir dessa estrutura, um caráter atmosférico passa a abraçar o desenrolar conjuntural, contribuindo com um viés minimamente etéreo. Contando com uma frase rítmica macia em seu desenho serenamente sincopado como forma de romper com a ideia de ciclicidade, Vampiri pode até ter um alicerce aveludado, mas em sua essência, ela se destaca por desempenhar a difusão de uma emoção que beira uma melancolia associada à reflexão. Vampiri, diante dessas percepções, desemboca em um refrão de energia dramática que dá ainda mais peso ao seu enredo de aparência romântica com toques nostálgicos.
Um detalhe excêntrico é percebido já a partir dos primeiros sonares da faixa. Um detalhe de essência bucólica e de uma delicadeza campestre pegajosa. Usando o banjo como um novo elemento para construir uma atmosfera introspectiva, Gennaio, na forma da canção de duração mais longa do disco, propõe a união com o violão para distribuir as intenções emocionais do denso e do sereno. De tom reflexivo bastante emotivo, a composição se beneficia de uma harmonia lírico-interpretativa que, de graciosa, atinge os contornos da ternura de forma a fazê-la uma composição deliciosamente envolvente.
De beat cru e um dedilhar de nuances rápidas e suavemente secas, a canção apresenta uma mixagem que deixa a camada lírica em uma notável superfície de destaque em relação ao restante de seu instrumental. Esteticamente frágil, Monteverde tem uma energia dramática cujos traços de sua harmonia curiosamente rememoram parcamente aquele explorado em Shallow, single de Lady Gaga e Bradley Cooper.
O que o ouvinte encontra ao se debruçar sobre as audições de Rovine em sua totalidade é uma conjuntura de 14 composições completamente enraizadas no intimismo, no minimalismo e na crueza estética. Um produto marcado pelo seu sangue essencialmente orgânico e por tomadas sonoras lineares que carregam torpor ao mesmo tempo em que são capazes de explorar uma densa profundidade emocional.
Combinando um violão delicadamente dedilhante com uma levada rítmica de denotação bruta e seca, o disco coloca o espectador diretamente em contato com uma atmosfera que suscita a reflexão ao mesmo tempo em que conduz um passeio pela dor e pela memória de forma singela. É assim que o material evidencia, sem churumelas, o lo-fi como a base de todas as suas texturas.
Por essas razões, as cinco primeiras obras do álbum merecem mais atenção, pois esses detalhes são, aqui, trazidos com maior ênfase. Claro que outros títulos, como Fotogrammi e seu sangue indiscutivelmente folk, e Granelli di Sabbia, com a sua harmonia acústica semelhante àquela de Garotos II – O Outro Lado, single de Leoni e Dinho Ouro Preto, se somam a essa conta. Com elas na conjuntura de destaque, Rovine explora a intimidade da infância, adolescência e adultescência vivenciadas pelo próprio Tulegon.
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