Sakura | West Wickhams lança EP com sessões lo-fis post-punks com synth-pop brisante

É com um beat pulsante que a composição tem seu início declarado. De natureza crua, mas não necessariamente bruta, esse viés rítmico entorpece o ouvinte de imediato, mesmo sem ter o apoio de elementos propriamente sonoros durante o nascimento imediato da obra. Felizmente, porém, segundos mais tarde o ouvinte se depara com um viés harmônico-melódico fornecido cuidadosamente por um teclado de natureza amorfinante, doce e sintética. A partir dele, a embriaguez toma conta do cenário e captura a atenção do ouvinte. Com direito a uma linha lírica pronunciada de maneira introspectiva e quase transcendental pelo timbre suavemente azedo do vocalista, Up To The Old Tricks tenta misturar, ou melhor, equilibrar lucidez com morfina. E isso acontece mesmo diante de brisas cuidadosamente melodiosas expostas pela guitarra.

Por alguns instantes, dá a entender que a levada rítmica inicialmente elaborada pela bateria, em sua forma acústica, chega a flertar com o jazz em certo ponto. A partir dessa percepção, a canção é tomada por certo charme que chama a atenção do ouvinte e o contagia de imediato. Porém, o que realmente surpreende no decorrer da canção é o fato de que os tilintares opacos da cúpula do prato de condução se torna um elemento-chave na construção não apenas do andamento rítmico, mas, também, no oferecimento de texturas e sabores. Com o teclado sendo responsável por reproduzir um som aveludado e bojudo que preenche a base sonora, a canção permite que a audiência se atente à construção lírica, a qual é feita de maneira intimista pelo vocalista. Contagiante, mas ainda mantendo uma veia crua, Ice Block se consagra como uma faixa suave, mas, ao mesmo tempo, penetrante.

Uma agudez ácida preenche o cenário introdutório de imediato. Com certo requinte de densidade pairando pelo ar graças à cuidadosa acidez da distorção da guitarra preenchendo o escopo sonoro, a faixa é marcada por uma constância linear e consistente. Flertando com uma psicodelia semelhante àquela explorada pelo Pink Floyd durante seu respectivo single Time, As The Camera Shuts se consagra como uma obra instrumental com trechos de vozes que ecoam pelo ecossistema de maneira fantasmagórica.

Trazendo um contexto mais equilibrado no que tange ritmo e melodia, a faixa já tem seu nascimento marcado por um contexto sereno e pulsante combinado com uma camada entorpecente de morfina exposta pelo teclado e seu sonar aveludado e suave. De natureza hipnótica, EQ The Viper rouba o consciente do ouvinte mesmo com um baixo marcante e uma bateria de frases marchantes.

A sonoridade é doce e com leves inclinações para com a estridência. Fornecida pelo teclado, é interessante pontuar que ela não sugere desconforto, mas, sim, outro tipo de sensorialidade. Associada a um curioso estado de conforto, ela embebe o espectador diante de um aconchego de natureza transcendental. Agraciada por uma mansidão hipnótica, Save Yourselves fecha a conta de Sakura com um instrumental tocante e de nuances curiosamente motivacionais.

Para um EP, Sakura traz uma profundidade no que tange estética e estrutura exemplar. Com sonoridades consistentes, mas sem desvirtuar de sua própria proposta de leveza espectral, o material convida o ouvinte para um momento gracioso de introspecção, delicadeza e perfume. Cheio de sutilezas e toques florais em meio às suas serenas acidezes, o extended play visa, essencialmente, lembrar da fragilidade da vida e de sua natureza impermanente.

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