Em um primeiro momento, dá até a entender que a canção tomará um rumo sombrio. Em razão da estética e da forma com que o violão se movimenta durante os primeiros instantes da obra, o grave domina assim como uma sugestão reflexiva. Porém, conforme o instrumento avança, apenas o pensar se mantém. Afinal, Be Me se torna leve e suave, quase como se seu frescor fosse capaz de aconchegar o espectador em uma bolha em que não há problema. Delicada, a faixa conta com um time de backing vocals importante na construção de camadas sensoriais cuidadosamente valsantes e etéreas que dão o respaldo ideal à voz adocicada e afinada do vocalista. Como último ponto, mas não menos importante, a faixa se destaca pelo seu minimalismo estético-estrutural, lhe entregando maciez e uma fluidez naturalmente envolvente.
Diferente daquilo que foi presenciado na composição anterior, aqui o violão não se prende a um intimismo de inclinações densas, melancólicas e reflexivas. Afinal, já durante os primeiros sinais de sua desenvoltura melódica, o instrumento desfila uma maciez swingada que traz consigo nuances sonoras que misturam o latino e o ibérico em apenas uma atmosfera sônica. Provocante até na forma como o vocalista vive os versos líricos, The Story Of A Mistress se pauta em uma base com bastante influência do flamenco, o que a torna dançante e amplamente sedutora, mas que ainda se permite viver breves instantes de dramaticidade.
O intimismo e a melancolia encontram, aqui, uma nova fonte de experimentação. Diferente da combinação instaurada durante a primeira faixa do álbum, Bowie On The Wall se consagra por uma melodia ondulante, mas igualmente reflexiva. Frágil, eis aqui o primeiro produto do disco a ter uma camada rítmica bem trabalhada. Contando com a bateria e a sua aptidão na construção de uma cadência firme, mas sem se desvirtuar do caráter frágil, a composição bebe generosamente de brisas elaboradas a partir do senso mais profundo de nostalgia. Curiosamente, a faixa apresenta um contexto lírico que, em união ao escopo sonoro totalizante, ganha tons rascantes e viscerais que amplificam o seu próprio tom emocional.
É interessante, porque ao mesmo tempo em que o violão propaga a percepção defluidez, a afinação por ele adotada sugere tensão e suspense, criando um contraponto estético bastante chamativo. Adotando o auxílio do autotune para adquirir texturas mais digitalizadas, o vocalista se apoia nesse viés melódico e entrega algo inovador para o álbum, que é uma narrativa embebida em angústia, em desespero e em agonia. Emaranhada por tons de clemência, How To Be Good se vale de questionamentos que levantam a dualidade entre a expectativa alheia e as próprias aspirações, necessidades e essências.
Pela primeira vez o folk entra pela porta da frente e não pelas laterais. Junto com o violão, o escopo rítmico cria um contexto cru, mas espontâneo e curiosamente envolvente. Inclusive, em razão do formato da presença da adoção de sobreposições vocais, a presente obra é respaldada por uma identidade de apelação radiofônica notável. Instrumentalmente minimalista tal como as composições anteriores, A Well Worn Path tem rompantes líricos que entregam intensidades em pronúncias pontuais de forma a trazer a dramaticidade uma vez mais à discussão. Importante pontuar também a presença do banjo na camada melódica, que dá à canção um aroma regional envolvente e entrega ao pop um sabor de excentricidade.
Delicada, intimista e melancólica. Esse tripé emocional pode ser suficiente para descrever Bittersweet, uma faixa que chama a atenção pela sua estrutura pautada no andamento rítmico do blues. Macia, portanto, a canção é carregada de uma fusão melancólica-nostálgica que reflete a aflição do amadurecimento e da chegada da maioridade, momento em que as responsabilidades ganham mais peso e um tom de seriedade inquebrantável.
Scenes from a Well Worn Path – Side One é um EP intimista. A partir desse intimismo, encontra-se o minimalismo. E do minimalismo, o ouvinte desemboca em uma paisagem em que o menos se torna mais. Mais texturas, mais emoções, mais sugestões de reflexão, mais delicadeza, mais frescor. Mais sensibilidade.
Justamente a sensibilidade é o detalhe que está escondido nas entrelinhas de cada composição, obras enxutas e cruas com instrumentais bem trabalhados e um viés monocromático que evidencia o drama. Um drama que envolve o ouvinte em seu próprio caminhar por entre lembranças, tristezas e agonias que, de alguma forma, são representadas pelo EP. É assim que Scenes from a Well Worn Path – Side One assume a forma de um storytelling vívido e inteligente.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/6OAOyiI4qMC53BavqatZCI
Site Oficial: https://www.musicbyjeremy.com
