Searching / Finding | Sloe Paul anuncia álbum estilizado nos anos 60 com brisas de um pop urbano

Não necessariamente que a canção seja embebida em uma estrutura pop, mas, a verdade é que a sua paisagem sônica bebe, sim, desse gênero musical. Do seu compasso e da sua suavidade. Ainda assim, diante da performance cuidadosamente pulsante do piano, bem como as brincadeiras performáticas feitas pelo cantor, dão, ao espectador, a oportunidade de identificar generosos traços da soul music na receita de Venus Weeks. Fresca e cuidadosamente sincopada, a faixa traz consigo um senso de tranquilidade invejosamente penetrante.

A acidez delicada e adocicada daquele elemento que parece ser o mellotron deixa a atmosfera com uma silhueta confortável, aconchegante e com uma aparência noturna bastante atraente. Não que ela seja vibrante, mas a combinação de elementos que compõe a sua estrutura resultam em uma sonoridade delicada, mansa, aromática e entorpecente. Chegando ao ponto de transpirar encantadoras doses de um esoterismo charmoso diante de flertes para com a roupagem do dream pop, a faixa encontra uma serena sintonia tanto em relação ao baixo quanto à bateria, ambos também performados por Paul Abbrecht, também dono da voz levemente nasal que adorna os escopos líricos do álbum. Com direito à companhia aveludada e doce da voz de Ella Estrella Tisch, Badger se configura como uma obra amorfinante bastante sedutora.

O wurlitzer é o elemento que carrega todo o charme da canção. Isso porque ele se movimenta de maneira amaciada, delicada e serena. Quase como se esbouçasse suspiros prolongados em busca de alívio, o instrumento, em meio aos seus cuidadosos pulsos, o instrumento se vê perante os ecos proferidos pela guitarra elétrica a três mãos dominada tanto por Marcus Schreiter quanto por Niklas Kiepe e Fabian Kiepe. Explorando um ecossistema inquestionavelmente introspectivo e de nuances reflexivas, a faixa se desenvolve perante uma paisagem sônica que sugere uma mistura interessante de melancolia e pesar. Trazendo consigo boas doses de influência de Elton John, Butterfly se destaca por ter, durante sua execução, momentos em que mergulha em paisagens psicodélicas enquanto faz, de sua sonoridade, algo amplo por conter, ainda, a presença da guitarra acústica de Lina Lohmann.

O piano é, em si, o instrumento capaz de moldar toda a veia sensorial da obra desde seu despertar imediato. Com sua delicadeza suspirante e intimista, ele constrói uma base melódica macia e fluida que envolve, contagia e captura o espectador. De viés puramente artístico e teatral, graças à maneira com que Abbrecht interpreta as linhas líricas, a canção escancara uma natureza sonora sessentista demasiadamente charmosa. Ganhando brisas blues em razão da performance da guitarra solo, What I Dream At Night tem, em sua essência, uma veia dramática e nostálgico-melancólica muito bem representada pela cama harmônica adocicadamente ácida proferida pelo mellotron ao fundo na base melódica. De ritmo repicado, a faixa conta com a presença ilustre de Julian Colin. O músico, muito além de ser o responsável por dar vida à veia percussiva da obra, é responsável, também, pelo baixo e seus grooves pontuais e secos, além da desenvoltura da guitarra elétrica.

Pode se dizer que o ouvinte esteja diante de um álbum completo. Afinal, Searching / Finding tem, em sua arquitetura conjuntural, muito mais do que o tripé harmonia-melodia-ritmo. Ele tem letra. Ele tem alma. Ele tem performance. Sua desenvoltura sugere algo teatral, dramático e profundamente emocional, algo que acaba, por vezes, escorregando pela própria sensibilidade rasa do espectador.

Para saborear um trabalho de tal magnitude, agraciado por diversas camadas e por um arranjo consequentemente complexo, ainda que, aos ouvidos simplórios, soe apenas e tão somente como um álbum de sonoridade amansada. É preciso ter uma mente e corpo abertos. Que tenha todo o seu corpo aberto a novas, e até profundas, vivências sensoriais. 

Por mais que se venda como um produto de base pop, seria um grande engano encerrar, aqui, a sua definição de gênero. Afinal, o álbum, com previsão de lançamento para 24 de outubro, bebe, também, de terrenos musicais como o blues, o dream pop, o indie rock e a new wave. Esses detalhes podem muito bem ser observados durante a audição das quatro primeiras obras de Searching / Finding. Mesmo assim, a profundidade emocional, o caráter dramatúrgico e, acima de tudo, suas camadas sessentistas brisantes, estão presentes por todos os lados de maneira a envolver, aconchegar e entorpecer o espectador. Eis aqui, portanto, um disco que flerta com o etéreo enquanto namora o transcendental em meio a inclinações reflexivas.

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