Sheykh Forever anuncia Fire In The Mater’s House, álbum definido como politicamente volátil

O embriagante se anuncia junto ao áspero e a uma atmosfera mista de lo-fi e um viés curiosamente acústico e aparentemente improvisado. Depois de uma sequência de imitações de sintonizações em diferentes paisagens sonoras, a canção enfim encontra o seu equilíbrio e o seu fluxo a partir de uma base rítmica pulsante e seca, além de uma melodia de visual dedilhado e minimamente introspectiva. Atmosférica, embriagante e adquirindo um viés levemente sincopado, I’m Your History, conforme avança em meio à sua própria desenvoltura, alcança um patamar de estímulo dançante viciante e entorpecente. Com versos líricos que se associam diretamente ao clima noturno e fluido da melodia, a faixa consegue oferecer agradáveis vislumbres de uma disco music penetrante.

Depois que uma guinada sintética se apropria da introdução com alguns efeitos, a composição mergulha surpreendentemente em um contexto de conotação acústica que transpira pulso, cadência e groove. Ainda mais sincopada do que a canção anterior, Ghosts! vem respaldada por um ritmo provocante e por um baixo de performance denotativamente saliente que transpira boas doses de funk em meio à sua própria identidade. Swingada e com um cantor se aventurando em falsetes bem pronunciados em momentos pontuais, a faixa conta com sobreposições vocais que criam um contorno fantasmagórico marcante que a torna ainda mais sedutora.

Ainda que a sua base seja entorpecente e embriagante, o baixo, com seu groove bojudo, consegue fornecer lapsos de consciência ao mesmo tempo em que motiva o swing e, portanto, traz a sensualidade para os holofotes. Misturando claramente menções de funk com a disco music, a faixa chama a atenção por soar introspectiva mesmo na presença de um sintetizador responsável por trazer uma sonoridade que eleva a energia em difusão. O mais curioso é perceber que Saviour oferece um cantor de timbre mais agudo e de raspas ásperas que acaba conseguindo, de uma forma bastante interessante, contribuir com a sua sensualidade estético-estrutural.

Enquanto a textura adocicadamente ácida e de nuances graves do hammond parece transitar livremente pela atmosfera melódica, a bateria se responsabiliza por elaborar uma levada rítmica cuidadosamente pulsante, mas notadamente sincopada. Ainda assim, o que acontece é que Lineage (Where Is My Baby?) se vende a partir de boas doses de morfina que se formam com a interação entre o conteúdo lírico e o melódico hipnotizante, os quais, invariavelmente, desenvolvem um contorno estrutural indiscutivelmente linear.

Fire In The Master’s House não é um álbum de disco comum. Afinal, a paisagem e a identidade da sua disco music não são necessariamente indicadas ao centro das pistas de dança, mesmo que se apoiem em cenários devidamente noturnos. Explorando texturas doces, ásperas e ácidas enquanto pincela boas doses de torpor no seu processo de desenvolvimento, o produto traz sim o contágio, mas talvez não com a intensidade desejada.

Felizmente, porém, mesmo que tenha momentos de linearidades estético-estruturais e harmônico-melódicas, o disco se vale das suas superfícies, dos seus estímulos sensoriais e especialmente dos grooves de extrema saliência presentes na base melódica. Nesse aspecto, por mais que as suas quatro primeiras faixas estejam em vantagem em relação às demais, existem outros títulos que merecem destaque.

Diante de sua track list de 14 títulos, Same Disease talvez seja aquela em que a disco music atinge o seu máximo grau de pureza. Com um ritmo arrastado a ponto de rememorar o andamento da house music, a faixa tem uma atmosfera extremamente dançante que, na presença de um baixo marcante, evidencia o protagonismo de um sintetizador que escancara os flertes com a new wave. Another Thing Coming, com seu viés provocador e boas notas de crueza, é outra prova que merece exaltação. Assim, Fire In The Mater’s House se configura como dançante e expansivo mesmo sendo definido como politicamente volátil.

Mais informações:

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