Smoke & Sex | Switch The MC lança segundo capítulo da trilogia Comme Moi

Enquanto o som de água correndo rouba a atenção do espectador, os latidos de cães e uma voz feminina levemente gutural cantarolando são ouvidos bem ao fundo da paisagem sônica. No meio disso tudo, um compasso rítmico embrionário é percebido pela textura seca daquilo que parece ser o chimbal fornecendo vislumbres de maciez. Surpreendentemente, quando o espectador menos espera, o enredo lírico se inicia, mostrando que 6 AM se configura em uma composição rappeada. Tudo isso graças ao timbre grave de Switch The MC e de sua cadência verbal sincopada.

O beat ecoa livremente pelo ambiente. Mas ele não é o único elemento que preenche a paisagem sônica dessa canção que se anuncia. Um sonar sintético que imita o veludo do violino valsa calmamente pelo ambiente. Porém, mesmo diante desse mesmo grau de sutileza, esse som acaba envolvendo o ouvinte em uma dramaticidade que flerta com o melancólico. De detalhes ligeiramente mais sombrios em razão da forma como o rapper vive o enredo lírico, Stretch se desenvolve diante de uma estrutura rítmico-melódica que se mostra linear, mas não menos intrigante e envolvente.

O som tradicional do teclado, em união com a reprodução da identidade sônica do hammond com seu dulçor equilibradamente ácido, faz com que a canção se mostre diferente de tudo o que já foi apresentado até aqui. Isso porque, na faixa-título, o beat se constrói de maneira sincopada e lexicalmente sensual, fazendo com que a cadência lírica siga a mesma métrica. Na presença de um vocal feminino levemente grave que se evidencia perante o idioma francês, a presente canção é tomada por um charme irresistível em razão de sua beleza inquebrantável. Sensual, a canção se torna marcante em razão da sua linha percussiva calcada no afrobeat.

Ela parece ser agraciada por boas doses de dramaticidade. Porém, conforme amadurece a sua estrutura, a faixa mostra que esse drama, na verdade, tem, em si, uma natureza sensual atraente e charmosa. De texturas aveludadas, a canção surpreende por ser estruturada em forma de looping, uma vez que o drama do início volta ao centro dos holofotes assim que o escopo lírico começa a ser desenvolvido. Introspectiva, mas flertando com a fusão entre o afrobeat e o trap por meio de um chimbal trepidante, Twosome apresenta uma identidade autobiográfica pungente pela forma com que o rapper vive cada palavra proferida.

Smoke & Sex é um material de natureza envolvente. Porém, não é esse o fator que o torna um EP memorável. Tal fator se concentra no fato de ser agraciado por uma fusão equilibrada e bem trabalhada de rap, trap e afrobeat. De natureza introspectiva, mas, especialmente, dramática e pungente, o extended play consegue ser, ao mesmo tempo, marginal e excêntrico, algo que acontece graças à presença de beatmakers nigerianos e belizenses.

Ainda que esses detalhes sejam mais bem visíveis no decorrer de suas quatro primeiras faixas, Smoke & Sex, na forma do segundo capítulo da trilogia Comme Moi, traz, em sua totalidade, um convite para que o ouvinte caminhe por temas como as relações românticas e a tensão entre ternura e o confronto. É assim que Switch The MC faz do EP um material humano, dançante e emotivo.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/4Lu2jTlZcqMUCg0FJW3Zm2