Sob o nome Cogley, Paul Cogley relança Deep Blue Sky, agora com quatro novas faixas

Já dá para perceber, desde seu início imediato, que a canção tem, em si, um caráter experimental marcante. Trazendo uma sonoridade aguda, quase estridente em relação ao seu dulçor, e reverberante, ela causa a impressão de um ambiente de postura intimista. De natureza sintética, esse sonar vai sendo calmamente acompanhado pela leveza fresca do riff da guitarra e da levada amaciada da bateria. Delicada e com bom corpo graças à maneira com que o baixo preenche a base melódica, Mr. Spaceman combina intimismo, eterismo e um perfume psicodélico bastante suave, mas envolvente, que é cuidadosamente engrandecido pelos versos líricos entoados de forma serena pela voz intermediária de Cogley.

Aqui, o espacial vai flertando cada vez mais com um intimismo profundo e fixo no que se refere a uma sensorialidade dramática. Não necessariamente que seja pinçante, mas esse fator emocional consegue fazer com que a canção seja envolvida por uma brisa sofrida e dolorida que chega a construir uma espécie de elo entre artista e ouvinte simplesmente pela pungência. Melancólica e de base sônica atmosférica, What If It Were You traz frases rítmico-melódicas bem distribuídas e com divisões bem estruturadas, fazendo com que o espectador caminhe pelas lágrimas sob uma ótica visceral, mas também perante um senso de fluidez que suaviza o sofrer. De frases rítmicas precisas, a canção reforça a presença do baixo como um importante elemento no alcance da firmeza sônica ao passo que atinge um viés reflexivo.

Delicada e aromática, mas sem fugir do intimismo, algo que, aqui, é amplificado em razão de uma introdução de natureza sônica minimalista, a canção faz com que o dulçor do vioão, sua fragilidade e sua agudez singela tragam consigo uma postura lamentosa de olhares marejados. A partir de uma leve elevação em sua velocidade, a obra passa a ser abraçada por uma camada atmosférica que lhe fornece consistentes brisas esotéricas que lhe conferem, consequentemente, uma identidade espirituosa. Chamando a atenção pela sua inclinação densa e reflexiva, Lament, na forma de um instrumental de nuances transcendentais, explora o suspiro como forma da busca por um alívio difícil de se alcançar. 

O sonar sintético dos violinos já traz consigo uma ideia de sofrimento, de melancolia. De um intimismo associado às lágrimas. O interessante aqui é perceber que, diferente de Lament, a faixa, mesmo sendo embebida em uma natureza atmosférica embriagante, tem, nos grooves graves do baixo, o elemento que tenta resgatar a lucidez e manter o ouvinte sob o domínio de sua própria consciência. Agraciada pela desenvoltura das baquetas que surtem na extração de um som ligeiramente opaco, a qual se percebe na companhia de uma guitarra de riff aveludado de natureza bluesada, Longing traz a dor de uma forma mais visceral. Com mais texturas e com a presença de versos líricos pensantes, a faixa usa da precisão da bateria como uma espécie de âncora em relação à realidade, mesmo que haja diversos estímulos psicodélico-espaciais moldando o seu ambiente.

Deep Blue Sky não é um álbum vazio ou mesmo leve. Ainda que as suas paisagens de nuances frescas e atmosféricas tragam essas ideias sensoriais, elas escondem, de alguma forma, o coração dos diálogos lírico-sonoros que as suas composições tentam esconder. Cheio de dor, sofrimento, lamentação e com uma combinação melancólico-tocante de drama, pungência e ligeiros requintes nostálgicos, ele esboça a vulnerabilidade do indivíduo sem qualquer tipo de cerimônia.

Em sua repaginada, o material, além de destacar um bom trabalho de mixagem e exploração de texturas, traz quatro novos títulos que engrandecem sobremaneira essa viagem sensorial. Staring At The Stars, com seu intimismo denso e melancólico esboçado através do artifício do fade in, fator que amplifica a sua melancolia; Dust In My Eyes, com seus suspiros lacrimais trazidos pela harmonia melodiosa dos violinos que fornecem um ambiente atmosférico-espirituoso lacrimal; Digital Child, com seu esoterismo de nuances tecnológicas; e a faixa-título, com seus versos suspirantes ao violão, fazem de Deep Blue Skye uma representação perfeita de um mundo que perdeu seu rumo.

https://cogley.bandcamp.com/album/deep-blue-sky

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