O que acontece é que, desde a introdução imediata da composição, o ouvinte é colocado em um ambiente regido simplesmente pelo suspense, pelo imprevisível e por um toque sombrio ultrajante. A partir dos uivos da guitarra sobrevoando uma base sintética obscura e fria, a composição hipnotiza, intriga e faz com que a audiência tenha a curiosidade e o interesse fisgados em saber quais serão os próximos passos trilhados pela sua própria evolução.
Eis então que, de uma introspecção quase entorpecente sugerida pelos seus gritos ululantes, a guitarra se transfigura. Agora, ela se apresenta diante de um visual sinistro que, caminhando por um terreno de superfícies pegajosas, esbarra nos pulsos firmes, enfáticos e surpreendentes da bateria. Soando como um aviso, um alerta, cada um desses punches rítmicos é pronunciado com a devida firmeza até que a aspereza passa a dominar a textura do riff da guitarra.
É nesse momento, inclusive, que o ouvinte consegue, a partir de um caráter estridente e esteticamente linear, identificar a assistência da inteligência artificial no entorno melódico em desenvolvimento. Com um timbre brilhante soando de uma guitarra acústica que se intercala com o soturno grave e rasgado proveniente da guitarra distorcida, a canção chama a atenção por conseguir misturar introspecção, sensualidade, frescor e brutalidade em um mesmo ambiente e de maneira sintônica.
Combinando contornos curiosamente ibéricos em meio a uma base metalizada com espirros de um hard rock mais melodioso e sensual, a faixa ainda consegue explorar o onírico perante uma base rítmica pulsante em uma cadência 4×4 estritamente linear. O interessante, porém, é perceber que, diante da sua evolução conjuntural, a canção mostra que a guitarra acústica não traz o ibérico, mas, sim, inflexões sonoras que comunicam uma espécie de melisma que induz à identidade musical árabe que, no contexto turco, de onde vem o Suat Soyyiğit, escancara o makam.
Fresca e entorpecente, a faixa se mostra um produto que chama a atenção por misturar a delicadeza e a aspereza de uma maneira equilibrada. Inclusive, o solo é um momento em que o lado emocional atinge o seu pico, com uma dramaticidade melancólica pegajosa, algo que, curiosamente, não domina o restante da canção em sua totalidade, ainda que lampejos sofridos sejam percebidos de maneira pontual. É assim, com identidade, regionalismo e atitude, que Aperture, com suas inclinações atmosféricas, conquista o posto de principal composição de A Structure For Falling Light, o novo álbum instrumental do Suat Soyyiğit.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/5Vw1DA5UX2z9lF3pwpWFga
Site Oficial: https://suatsoyyigit.com
YouTube: https://www.youtube.com/channel/UCHBVCWkOw18orkGVbqRl6lA
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