O despertar do álbum é ultrajante e audacioso, para dizer o mínimo. Sem instrumentação definida e se baseando apenas no som ambiente do burburinho de vozes e do ato do mergulho, ele nasce a partir de Poolboy.exe (Intro), uma faixa-prelúdio que apresenta indícios melódicos em uma camada distante somente no momento em que caminha para a sua finalização.
Diante da adoção do som do efeito scratch, o violão invade o cenário a partir de uma movimentação amaciada e uma afinação suave. Sendo rapidamente acompanhada por uma voz masculina de timbre intermediário e afinado, a faixa exorta, sem dificuldade, leveza, delicadeza e uma brisa delicada de sensualidade. Contando com uma levada rítmica em compasso 4×4, SUMMERTIME! adquire precisão e firmeza em relação à sua melodia, mas não tem afetada a sua sutileza estético-estrutural.
Aqui existem dois grandes fatores que diferenciam a paisagem da presente canção em relação às demais já pesquisadas. Primeiro, o vocalista se apoia no uso do autotune para garantir novas texturas à camada lírica. E em segundo, o violão adota um compasso próprio. Swingado, ele evidencia uma visível imersão no campo estrutural do reggae, ampliando a leveza e oferecendo boas doses de frescor ao cenário. Entre reverbs que fazem sua voz ecoar livremente pelo ambiente, o cantor faz de Drive With Aloha uma composição sensual e completamente enraizada no ritmo havaiano.
Completamente amorfinante. Talvez essa possa ser a melhor definição da canção a partir do contato com seu som sintético e borbulhante. Introspectiva, aromática, fresca e delicada, a obra também tem, no violão, um importante elemento na construção da melodia. A partir dele, a maciez e a leve agudez retirada de seus dedilhares se fundem ao pulso de natureza sintética e fazem de California (Hilo To LA) uma faixa mansa, mas com um interessante estímulo dançante.
Se o reggae foi apresentado como um ingrediente responsável por salientar os sabores já presentes nas referidas receitas, aqui ele surge como a base de todo o menu. Afinal, desde os repiques na superfície estridente da caixa da bateria até o compasso sincopado produzido pelas notas adocicadamente ácidas do teclado, ele está presente. Inclusive, nem mesmo o baixo, com seu groove encorpado e rebolante, consegue diminuir a proeminência do gênero musical na paisagem em formação. Com uma base atmosférica marcante durante o refrão graças a um novo tom explorado pelo teclado, Treasure destaca a sua leveza a ponto de fazer o ouvinte flutuar.
Se o espectador procura leveza, frescor, compasso e delicadeza, ele pode apertar o play sem medo em Surfboard Jesus. Afinal, eis aqui um material que explora a tranquilidade em todas as suas 10 faixas. Independentemente de existir torpor ou de ser apenas a maciez que comanda o compasso, o disco vale a audição pela sua natureza harmoniosa.
Com um escopo instrumental até que enxuto, o material consegue caminhar, com versatilidade, por ambientes de conotações indies para outros em que o reggae é incontestavelmente o imperador. Com muita graça e envolvência, o disco destaca as suas cinco primeiras canções por elas trazerem tais apontamentos com mais clareza.
Contudo, Dub With Aloha (Reprise) também merece atenção. Não apenas por ela trazer o dub em destaque, tal como seu próprio título sugere, mas porque ela apresenta uma cadência rítmica mais quebrada e um baixo de groove incontestavelmente gordo. A partir daí, portanto, Surfboard Jesus encanta, diverte e relaxa, sendo um disco apropriado para qualquer momento.
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