Syco-Femia | Novo álbum do One Of The Broken trata de um sintoma emocional degenerativo

Não existe exatamente uma introdução gradativa padronizada, mas, mesmo assim, o amanhecer da obra surpreende. Trazendo em notável evidência um vocal feminino se posicionando no cenário através de uma perfeita valsa de caráter gutural, a canção tem seu início destacado por um viés estrutural minimalista. Gradativamente, porém, a obra vai crescendo em elementos, mas sem perder sua paisagem leve a ponto de beirar o transcendental. Fresca, mas com nuances dramáticas, a faixa-título mistura imponência e empoderamento com uma curiosa contradição proposital, insegurança e vulnerabilidade, destacando, assim, seu caráter introspectivo.

A presente faixa chama a atenção desde seu início imediato. Muito diferente da obra anterior, que enveredou por um campo pop barroco e soturno envolto em densa dramaturgia, aqui a sensualidade, no que tange o swing estrutural, é quem manda. Fornecida por meio de compassos sincopados adotados inicialmente pela desenvoltura da guitarra em meio ao seu riff agudo, a presente composição dá ao ouvinte a chance de degustar, mais profundamente, o timbre da cantora. É aí que se percebe que ela, ao mesmo tempo em que consegue se associar à Florence Welch, também proporciona influências de nomes como Taylor Swift e Taylor Momsen tanto no que tange seu estilo de canto e sua abordagem lírica. A partir dessas evidências, I’d Die For You combina certo grau de intensidade com um toque emocional pungente enquanto mistura, estruturalmente, o pop com o soft rock e ligeiras menções de reggae.

Mantendo o swing como sua base estética, a faixa, durante seu período de desenvolvimento inicial, prossegue com um marcante flerte para com uma roupagem mais voltada para o campo do folk. Com direito à presença do teclado, instrumento que, aqui, além de fornecer pulsos de harmonia súbita, despeja pitadas de um sabor adocicado que amplia a experiência sensorial do ouvinte. Ainda que deleitada sob uma base rítmica simples, a composição se percebe agraciada por uma camada groovada essencial para abrilhantar o seu caráter sensual e saliente. Com um refrão em que a cantora se aventura em explorar os amplos alcances de sua voz, We’ll Burn Alive traz um quê provocativo imerso em uma intensidade emocional explosiva e, portanto, incandescente.

Garantindo a mesma estrutura, sincopada e com breves repiques percussivos, a presente canção se apoia em boas noções de movimento e fluidez enquanto se deixa levar por um viés sensorial sensualizante. Dando o devido destaque aos pulsos do violão, instrumento que, aqui, ao mesmo tempo entrega leveza, pulso e fescor, I’ll Be Your Everything surpreende o espectador por romper a bolha estrutural do álbum no que tange a musicalidade explorada. Isso acontece em virtude da inserção de uma sensualidade mais densa e profunda que traz consigo uma inquestionável imersão no campo da soul music, algo observado, inclusive, através da contribuição de metais como o trombone e o trompete, os quais abrilhantam o cenário com sua mistura sônica de estridência, opacidade e agudez.

Syco-Femia é um álbum que chama a atenção, principalmente, por não poder ser rotulado de forma única e, portanto, unilateral. Afinal, ele traz um campo musical vasto que prova não apenas a versatilidade do One Of The Broken, mas, em primeira instância, a profundeza de sua sensibilidade estético-lírico-estrutural.

Caminhando livremente entre o pop, o folk e a soul music, o álbum combina sensualidade, dramaticidade, romance e melancolia diante de uma receita sensorial que se destaca, principalmente, diante das quatro primeiras músicas da lista de faixas do material. Ainda assim, Syco-Femia é, como um todo, um material experimental no que tange textura, o grau de emoção colocado nas interpretações líricas, e, também, na forma como seu instrumental é trabalhado. 

Com Syco-Femia, o One Of The Broken acaba explorando um autossacrifício compulsivo, além de, surpreendentemente, a perda do senso de identidade em meio às lentes da hiper-feminilidade. É possível sorrir enquanto o pesar pate à porta. Suspirar enquanto o grito clama por uma brecha para ser exortado. A emoção é um campo de incandescentes manifestações nem sempre compreendidas ou, mesmo, antecipadas. E é justamente essa a análise na qual o álbum se atém.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/5ktBRT5WacpRWv4j4ORGbM

YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=VmX190rZcFk