A guitarra já chama a atenção do ouvinte pela sua natureza crua. Ainda que ecoante, ela confere uma sensualidade introspectiva regida por um quê charmoso de autenticidade, o qual se alastra conforme a bateria, em união ao baixo, entra em cena desfilando uma maciez contida, mas emocional. Denunciando a existência de uma forte influência da base do blues em sua estrutura, She explora uma sedução aveludada, mas não necessariamente associada à libido. Delicada e de flertes atmosféricos, ela possui uma linha lírica que, pronunciada pela voz aromática e adocicada de Ashley Ray Simon, traz consigo uma mensagem de reflexão inerente à realidade do mundo. A realidade do menosprezo e da ignorância em relação ao bem-estar da natureza.
Aqui, a guitarra continua sendo o elemento responsável por chamar pela introdução. Aveludada, ondulante e levemente entorpecente, ela vai caminhando, com suavidade, o ouvinte para um ambiente que, muito além de introspectivo, sugere uma vivência sensorial ligeiramente transcendental. Eis então que, conforme o enredo rítmico vai tomando forma, a canção, em consequência, vai se garantindo uma silhueta nativa, orgânica. É quase como se o ouvinte estivesse diante da elaboração de um mantra. Com uma suave sensualidade ofertada educadamente pelo violão, All Night traz Simon se aventurando por entre falsetes bem executados que se misturam por entre rompantes lírico-interpretativos que sugerem uma dramaticidade latente. Como a obra mais longa do EP, a faixa convida o ouvinte a entrar em um universo de superação associado a um processo de profundo autoconhecimento.
Mudando a estrutura de sua paisagem introdutória, aqui não mais é a guitarra que envolve o ouvinte e o leva, com graça, para os novos passos instrumentais, mas, sim, a bateria. Por meio de seus golpes fracos e ecoantes, ela coloca o espectador diante de um violão que traz o suspiro como forma de comunicar a melancolia. Incontestavelmente introspectiva, a canção é agraciada por um Simon de voz ainda mais aromática que aquela obtida durante a interpretação de She. De palato adocicado, a presente composição mergulha em uma atmosfera não apenas entorpecente, mas essencialmente soturna que lembra aquela atmosfera adquirida em Creep, single do Stone Temple Pilots. Em Running, inclusive, o eu lírico se vê entre a redenção e a consumação de sua própria esperança, fornecendo um viés autoanalítico e reflexivo.
Cuidadosamente sincopada no que se refere ao escopo rítmico, a canção se apresenta diante de uma melodia capaz de combinar introspeccão, delicadeza e sensualidade no que se refere à maciez. Graças à interação sincrônica existente entre as guitarras, a canção permite que até mesmo o cantor se sinta à vontade em explorar um toque mais rasgado de seu timbre, permitindo a aquisição de uma textura áspera que, curiosamente, é capaz de engrandecer a vulnerabilidade conjuntural da obra. Essencialmente mansa, Fire consiste em uma canção de natureza verbal espirituosa e reflexiva baseada em um senso altruísta de aprendizado coletivo para se ter uma vida mais adequada e associativa.
Terra Santa é um EP de título, no mínimo, sugestivo. Mesmo que escrito em português, o material é agraciado por uma track list de sete faixas cantadas inteiramente em inglês, mas carregadas de sentimentalismo e um senso de introspecção profundo. Diante disso, o conteúdo é construído de forma a fazer com que o ouvinte reflita sobre a vida, sobre seus comportamentos e sobre a forma como lida com a natureza em sua forma ampla.
Cheia de inclinações energéticas transcendentais, o material é regido por uma base completamente espirituosa, mas não necessariamente de natureza etérea. Sempre buscando o pensar diante de contextos coletivistas que beiram o naturalismo, Terra Santa impressiona pela sua vulnerabilidade estrutural e pela sua suavidade estética.
Tendo as primeiras quatro canções de sua sequência de faixas como aquelas que mais encapsulam o que, até aqui, foi destacado, Terra Santa se mostra como um verdadeiro mantra. Combinando maciez com reflexão, melancolia e introspecção, o material é aromático e gentil na forma como tenta ensinar o ouvinte a ter uma vida mais centrada e ligada à evolução em um sentido mais etéreo.
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