O azedume, junto com uma agudez atraente, se forma perante os primeiros sinais sonoros introdutórios perante uma cadência natural e envolventemente swingada. Com um certo tom de deboche que provoca o ouvinte e o chama a partir da curiosidade em relação ao absurdo, a faixa exibe um corpo crescente e uma levada rítmica suavemente sincopada, dando respaldo a despertantes lirismos uivantes. É nesse mesmo instante que Nothing Feels Normal Anymore, Pt.1, diante de texturas souls introduzidas pelo trompete, apresenta uma voz feminina aguda e açucarada que, na posse de Lacey Lune, exibe uma pronúncia que desperta a ideia de chacota com um teor leve e despreocupado. Tudo apoiado em uma base estrutural glam pop viciante.
Não é com uma paisagem conservadora que a canção exibe os seus primeiros passos. Enquanto existe uma densidade na base melódica que dá sustento a uma sonoridade pulsante e cuidadosamente sensual, a cantora assume o seu posto a partir de suspiros, no mínimo, sugestivos. Seguindo por uma cortina valsante que desfila uma espécie de véu de veludo sugerido pelo som adocicado do violino, a canção assume um compasso repicado que, junto ao breve trepidar dos instrumentos de corda, denuncia o soul como o seu alicerce. Com direito à presença de sonoridades percussivas opacas aparentemente vindas do bongô, a faixa acaba desfilando bons traços de dinamismo enquanto a cadência lírica assume a função de fornecer um atrativo próprio. Afinal, em Remind Me, How Much Are We Talking About? a própria dicção de Lacey funciona como uma textura chamativa que surte um despertar de fluidez muito bem-vindo.
Com o frescor de nuances reggaes abrilhantando a sua paisagem que já se apresenta sensual, a canção leva o ouvinte a um contexto não entorpecente no seu sentido mais léxico, mas macio, envolvente e capaz de envolver o ouvinte em uma espécie de casulo distópico. Macia em sua máxima essência, The Winners Of Capitalism a faixa une um toque festivo e contagiante e um conteúdo lírico que traz, entre aspectos zombeteiros, uma crítica afiada ao sistema político do capitalismo.
Dá para dizer que essa é uma composição abertamente focada em texturas. Afinal, desde o seu início imediato, ela coloca o ouvinte em contato com diferentes superfícies sonoras que tornam o seu ecossistema amplo e rico. Trazendo consigo um aroma de drama cinematográfico a partir das valsas expostas pelo violino, a obra escancara uma base rítmica precisa e ao mesmo tempo fluida que, em contato com o groove encorpado do baixo, esbanja a sensualidade mais pegajosa do soul. Com um frescor ibérico penetrante, The Girlfriend Experience with Knife Skills traz um clima de espionagem demasiadamente interessante.
Entorpecente perante seus versos líricos amaciadamente hipnóticos, Be My Producer caminha a passos mais sincopados e com uma cadência rítmica ligeiramente acelerada em relação àquelas fornecidas pelas paisagens sônicas anteriores. Sincopada e swingada na mesma medida, a faixa, ao mesmo tempo em que presenteia o ouvinte com um refrão minimamente dançante, o coloca em contato com uma base harmônica que faz crescer o escopo sonoro a partir do dulçor do teclado.
The Capital Club é um disco que pode ser descrito como um material cheio de boas surpresas. Trazendo uma vocalista que usa e abusa de seu timbre adocicadamente agudo para soar feiticeiro em relação ao hipnotismo do ouvinte, ele caminha por ambientes sonoros que só fazem aumentar o grau de atratividade.
Ao longo de suas 16 faixas, o compacto sugere jornadas pelo soul e pelo art-pop, mas sem deixar de passar por texturas do reggae e por compassos naturalmente sincopados que garantem fluidez e um toque de frescor. Ainda que soe leve e tenha as suas cinco primeiras faixas como aquelas que mais destacam as características até aqui pontuadas, o álbum comporta outros trunfos.
A harmônico-swingada e rítmicamente pulsante The Nurse With Wound List e a new wave Sex Is Where We Hide Things são exemplos disso. Com elas na soma, The Capital Club consegue evidenciar, de maneira incontestável, a sua natureza satírica que trata o que acontece quando a identidade vira conteúdo, a vulnerabilidade vira moeda e a rebelião se torna uma marca pessoal.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/254GNg6ZPxFpw4pVm6XcwO
Site Oficial: http://laceylune.com/
SoundCloud: https://soundcloud.com/lsl_productions/sets/lacey-lune
YouTube: https://www.youtube.com/channel/UCkvq0nHAasG2ojEmgQNLbkA
