Existe um quê de suspense na maneira como a canção é iniciada. Fazendo como se o ouvinte se sentisse no coração de uma mata virgem, vulnerável e inseguro, a faixa rapidamente passa a explorar diversos sonares que ampliam esse senso de fragilidade. Entre o agudo trepidante que soa, junto ao chocalho, tal como o balançar da cauda da cascavel, e o riff ecoante e grave da guitarra soando como a brisa do vento cantando através das folhas, a faixa vai amadurecendo uma essência interessantemente caótica. O interessante é notar que, ainda que esses sensos sejam de fato capturados sensorialmente pelo espectador, é o protagonismo absoluto do baixo que carrega, ao menos inicialmente, a alma da composição. Afinal, subitamente e, consequentemente, de maneira truncada, Bring The Love leva a audiência diretamente para uma paisagem amorfinante e dançante em que a linha lírica finalmente toma forma por meio da voz masculina e de timbre grave de raspas azedas de Sydmac4. Sob o espectro do rap, mas com notáveis flertes para com a paisagem da música eletrônica, o cantor faz da obra uma curiosa e audaciosa busca por amor no que tange o se sentir querido, protegido e, claro, amado.
Sua sonoridade sintética e adocicada propõe um imergir no universo da transcendentalidade. De origem delicada, já na introdução, graças a inserção de uma voz feminina que parece dialogar com o personagem central do álbum, a faixa acaba garantindo para si um caráter fantasmagórico e lexicalmente alucinante. O interessante, nesse ínterim, é perceber que o beat, mais do que denotar a cadência rítmica da obra, promove um surpreendente senso de sensualidade que garante à obra um andamento rítmico-melódico amaciado e fluido. Ainda que isso aconteça, Sirens acaba amadurecendo como uma composição dramática e de caráter penetrantemente melancólico-reflexivo.
O caos já é apresentado a partir do primeiro sonar da faixa. São pratos e louças se chocando e se quebrando, produzindo um som estridente. No entanto, parece que esse evento acabou tirando o personagem de sua lucidez, pois no momento em que o primeiro verso se inicia, ele captura um estigma de solidão diante da maneira como o rapper se apresenta. Por meio de uma sonoridade amaciadamente entorpecente que abriga um lirismo introduzido de maneira introspectiva, The Meeting é um capítulo em que o rapper se vê pedindo ajuda para se reequilibrar após perder o controle de suas emoções. É como uma consulta terapêutica em que Sydmac4 busca, com um desespero velado, a sua própria superação.
Definitivamente, é um álbum de coragem. De essência conceitual e até mesmo autobiográfica, The False Self And The Vase é um produto que captura vivências de Sydmac4 no que diz respeito ao enfrentamento de seus próprios demônios e, principalmente, trilhando o caminho do autoconhecimento.
Esteticamente dramático e introspectivo, mas, acima de tudo, entorpecente, o álbum explora texturas que vai do veludo à estridência, enquanto experimenta beats que podem soar tanto hipnóticos quanto eletrizantes. Esses são fatores muito bem ilustrados em suas primeiras três faixas, as quais, desde o início, soam sensorialmente profundas e esteticamente experimentais.
Com lançamento marcado para 19 de fevereiro, The False Self And The Vase, além dos destacados, traz outros títulos que merecem a devida atenção do ouvinte. Alive, em que o rapper funde elementos do gospel com o trap; Faith e sua sincopadamente sensual; além de Reminisce, que explora um veludo generosamente libidinoso através de um instrumental que flerta com o R&B, são grandes exemplos. Definitivamente, um álbum que oferece o coração de Sydmac4 a todos aqueles que quiserem percorrer pelo seu respectivo mundo emocional.
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Soundcloud: https://soundcloud.com/sydmac4