A introdução da canção já é capaz de construir uma atmosfera que, no mínimo, deixa o ouvinte intrigado. Isso porque a bateria, a partir de sua movimentação, sugere logo como uma marcha militar de nuances fúnebres. A guitarra, seguindo seus passos, vai desenvolvendo uma melodia introspectiva de brisas dramáticas a partir de uma afinação levemente azeda. Curiosamente, porém, assim que a linha lírica começa a ser desenvolvida, a faixa ganha, surpreendentemente, ares mais leves em face de um contágio gradativo. Com boa estruturação instrumental, ainda que linear em sua essência, The Boats chama a atenção pelo seu storytelling envolvente e penetrante.
Nova e feliz surpresa. O amanhecer, aqui, é estruturado por um instrumental de andamento ondulante que, de forma muito contente, explora o conceito de harmonia. Através de elementos como clarinete, flauta e saxofone, a faixa consegue desenvolver uma boa mistura de leveza, frescor, veludo e estridência com uma pitada de sensualidade. Porém, assim que passa para uma segunda etapa introdutória, Broken Bird se permite caminhar por um terreno mais calcado na métrica padrão do reggae. Ainda que isso aconteça, a faixa, conforme se desenvolve, vai se embrenhando por uma estrutura conjuntural folkeada de natureza hipnótica que, inclusive, conta com brisas de backing vocals que auxiliam em uma branda elevação na harmonia lírica.
Repetindo a mesma fórmula, mas explorando novas melodias, a presente obra se torna marcante por convidar o ouvinte a pertencer a uma atmosfera inédita. Aqui, existe a sensualidade. Existe, também, o requebrar. Tudo, porém, é feito com classe. Afinal, o jazz é quem domina os holofotes, principalmente por meio da base rítmica desenhada pela bateria. Em clima de jam session, Cometh The Hour, apesar de parecer uma obra instrumental, é agraciada pelo preenchimento de seus espaços restantes com um enredo lírico com viés de narração de uma história, o que a torna, assim como as demais faixas até aqui apresentadas, penetrante.
Com direito ao violino se fundindo ao time instrumental de forma mais marcante e, portanto, evidente, a faixa providencia notas de um frescor adocicado bastante aveludado em sua sutileza envolvente. Não é à toa que, através dele, o folk no seu sentido mais bucólico, seja colocado em cena com merecido destaque. Inclusive, a maneira com que o backing vocal feminino sobrevoa a sua respectiva camada no que tange a estrutura da faixa coopera em demasia com essa constatação. De sensos com conotações embriagantes, Empty Whiskey Bottle Mariachi Blues, no entanto, quanto mais evolui, mais ela permite ao ouvinte a percepção de ser, em verdade, uma composição que propõe a fusão do mariachi em sua pureza estética com o blues.
Não é todo o dia que se ouve um produto em que praticamente cada música de sua track list promove uma viagem sônica diferente. E o que chama a atenção, por conseguinte, é que o Nothing Concrete conseguiu realizar tal feito com grande maestria em The Imperfectionist. Apesar do nome, porém, o álbum não tem sequer algo para lhe dar um veredicto de imperfeição. Afinal, o que ele traz é musicalidade pura com uma aptidão exemplar de storytelling.
No decorrer de um total de 10 títulos, o material convida o espectador a caminhar livremente por terrenos das mais diversas naturezas, os quais lhe oferecem paisagens do folk, do blues, do jazz e, inclusive, da excentricidade regional do mariachi. Sempre com instrumentação equilibrada e bem trabalhada, o álbum preenche a atenção do ouvinte com lirismos envolventes e penetrantes que, sem dificuldade, chegam a até roubar a atenção do restante da arquitetura conjuntural de cada composição.
Ainda que perceptíveis com mais afinco nas quatro primeiras músicas de sua lista de faixas, The Imperfectionst é, em sua essência, a perfeição não do experimentalismo, mas da Música com ‘m’ maiúsculo. Aqui, se tem charme. Aqui, se tem, bem desenvolvidos, os quatro princípios que regem músicas de qualidade: harmonia, melodia, ritmo e letra.
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