The Mysterons | Novo álbum de Ollie K explora a experiência reminiscente de uma era esquecida de entretenimento

A canção de abertura pode até ser considerada como uma espécie de vinheta. Afinal, vivida apenas pela presença de uma voz masculina inquestionavelmente empostada de forma a soar quase trevosa, The Mysterons Threat (skit) é simplesmente um prelúdio que introduz o ouvinte para o universo sensorial a ser proposto pelo álbum. Aqui, cada palavra é narrada, inclusive, pelo próprio Mysterons.

É na segunda e presente composição que o ouvinte acaba sendo introduzido ao próprio mundo sonoro do material. Baseado em um ecossistema curiosamente sombrio entoado por uma levada rítmica amaciada, o presente conteúdo é agraciado por uma sonoridade sintética que mistura o introspectivo e o tenso com direito, ainda, pelo toque peculiar do scratch fornecendo texturas excêntricas. Captain Scarlet é uma faixa que ganha vida apenas após o final da introdução do personagem que dá nome à obra. É, inclusive, nesse mesmo instante, que a faixa convida o espectador a mergulhar perante um ecossistema regido pelo rap e seus versos líricos sincopados.

Enquanto o toque adocicado e charmoso da flauta é ouvido ao fundo por entre a presença marcante de chiados que enaltecem um quê de crueza estético-estrutural, uma introdução puramente narrativa acompanha o ouvinte perante o nascimento de um novo cenário. Curiosamente, porém, aqui não tem pausa. O verdadeiro conteúdo lírico se inicia sem aviso como uma verdadeira continuação da própria vinheta introdutória. Mantendo o viés rapper iniciado na obra anterior, Humild In Here acaba se valendo pela presença da flauta, instrumento que torna a paisagem sônica em algo não apenas charmoso, mas vanguardista a tal ponto que flerta com a cenografia da bossa nova.

Diferente de tudo o que já foi vivenciado até o momento, a presente composição amanhece como uma espécie de marcha agraciada pela companhia de uma sonoridade de caráter épico. Eis então que, enquanto as mesmas vozes que permitiram o amanhecer das faixas anteriores começam a ocupar o cenário, a presente obra vai sendo adornada por frases rítmicas cuidadosamente sincopadas em meio à sua natureza acústica. Agraciada pela presença pontual de um saxofone que entrega vivacidade e sensualidade ao ecossistema, Spectrum Is Green se consagra como uma obra macia e aconchegantemente entorpecente.

Depois de um sonar sintético de violino romper o silêncio, a mesma voz masculina que permitiu o amanhecer das faixas anteriores retoma seu lugar e expõe novos versos narrativos. Expondo uma espécie de realidade que pede segurança e proteção, a canção tem seu despertar oficial por meio de uma estrutura rítmica amaciada e levemente sensual em meio ao seu compasso sincopado. Tendo a presença do sonar grave de um instrumento de sopro como um importante elemento no oferecimento de texturas excêntricas, Roll The Dice invariavelmente prende o espectador em um cenário de puro torpor e sensualidade urbana.

O presente material pode ser entendido como um álbum excêntrico. A audácia e a autoconfiança que transpira de The Mysterons chega a contagiar o espectador pela sua natureza estético-estrutural, mas também pela maneira com que cada enredo lírico é construído. Afinal, fica extremamente claro ao ouvinte a percepção de que a intenção de Ollie K é de oferecer algo legítimo e não um produto mais-do-mesmo.

Cheio de experimentações sonoras em meio a uma base lírico-rítmica inquestionavelmente rap, o álbum chama a atenção pelos padrões presentes no decorrer dos seus títulos. Isso porque toda a música tem seu início marcado por versos puramente narrativos de forma a soar como uma espécie de início de capítulo de um novo desenho animado retro. E nesse processo, o que chama a atenção é que, mesmo apoiado no som, o disco soa como se fosse um verdadeiro gibi.

Talvez essa tenha sido a verdadeira ideia de Ollie K. Perceptível especialmente diante dos cinco primeiros títulos de sua track list, The Mysterons é, em sua integridade totalizante, um produto em que o rapper não esconde sua inspiração. Com absoluta influência da série televisiva de animação Captain Scarlet, o disco bebe de sonoridades sci-fis que cria coesão e permite a experiência reminiscente de uma era esquecida de entretenimento.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/7nFmZnnKrHsIszCg71q8zk

Soundcloud: https://soundcloud.com/ollie-k

YouTube: http://www.youtube.com/@OllieKizzle