O som do trompete se anuncia como um verdadeiro enunciado do amanhecer. Porém, existe, em suas entrelinhas sonoras agudo-estridentes, um quê melancólico, introspectivo e, curiosamente, lamentador. Como se trouxesse notícias trágicas, ele se movimenta manso e produz uma melodia branda, mas sofrida. Ecoando em pausas silenciosas que amplificam a paisagem dramática da obra, o instrumento consegue capturar comportamentos cenograficamente operísticos, fazendo de Appalachia and Wayfaring Stranger (After Traditional Hymns) uma espécie de peça teatral perfeitamente dramatúrgica.
Aqui quem puxa a introdução é o piano. Com seu dulçor e seu andamento fluidamente amaciado, é curioso notar que o instrumento exorta uma certa malandragem com um toque de ligeiro deboche em sua performance. Ainda que aparente estar se divertindo, tal elemento é confrontado com a mesma postura introspectivo-lamentadora da obra anterior assim que o trompete se anuncia. A partir de sua presença, Lieder eines fahrenden Gesellen (Arr. for Horn & Piano by Michael Drennan): No. 1, Wenn mein Schatz Hochzeit macht passa a soar levemente caótica, como se estivesse representando a vulnerabilidade emocional de um indivíduo inconstante.
Surpreendentemente, o que se tem aqui é a sintonia instrumental entre piano e trompete no que tange a elaboração de uma atmosfera alegre, sorridente e envolvente. Se assemelhando com composições mozartianas, Lieder eines fahrenden Gesellen (Arr. for Horn & Piano by Michael Drennan): No. 2, Ging heut morgen übers Feld consegue transportar o ouvinte aos áureos tempos do século XVII e fazê-lo se perceber nos suntuosos bailes da sociedade aristocrática do período em questão. Doce e contagiante, tal obra parece ter sido desenhada com a pura intenção de promover o divertimento na forma de dança, o que suaviza com a tensão anteriormente proposta.
Ela tem sua atmosfera marcada por uma energia inicialmente densa e embrionariamente intensa. Misturando elementos sensoriais que vão de um contágio sadomasoquista com um frescor apaziguante, a faixa parece seguir os mesmos passos da composição anterior, mas sem a pompa do divertimento. Mais visceral, mas não necessariamente a ponto de assumir uma dramaticidade rascante, Lieder eines fahrenden Gesellen (Arr. for Horn & Piano by Michael Drennan): No. 3, Ich hab’ ein glühend Messer mostra que, tanto trompete quanto piano, estão se envolvendo em um alicerce de rígida sintonia disciplinar e sensitiva.
Como prova de tal afirmação está, inclusive, a introdução da presente canção. Ambos os instrumentos se combinam de maneira sinérgica a ponto de criar o enredo atmosférico de natureza mais mórbida até o momento. Chorosa, lamentadora e explorando o ápice máximo da melancolia, Lieder eines fahrenden Gesellen (Arr. for Horn & Piano by Michael Drennan): No. 4, Die zwei blauen Augen von meinem Schatz entorpece o ouvinte em meio a dores emocionais que fazem, do choro, uma experiência ácida vivenciada em um ecossistema soturno.
Não é apenas um material ousado. É um material de belezas únicas, esplêndidas. Incomparáveis. O lindo, em The Singing Horn, está no fato de que Mary Beth Orr não apenas conseguiu elevar a figura do trompete, mas foi capaz de recriar seu protagonismo clássico, revivendo a sua participação em óperas grandiosas do século XVII.
Ainda que fundindo o piano, instrumento tido à época como uma espécie de prostituição operística, tal como foi com a valsa, o material desenha atmosferas envolventes e sensorialmente profundas. Provando e destacando, portanto, a capacidade de os dois instrumentos coexistirem em harmonia, o material leva o ouvinte a vivenciar momentos de diversão, mas também de um drama pulsante, rascante e visceral, questões evidenciadas principalmente em meio às quatro primeiras obras de The Singing Horn.
Com sua track list vasta, porém, o disco não apenas traz o trompete como seu protagonista absoluto, mas exorta a capacidade vocal ampla de sua própria instrumentista. Mary é mostrada, em diversos momentos, com o devido destaque ao ponto de enaltecer sua amplitude vocal e sua técnica operística. Com força e consistência, a cantora, nesses momentos, dá alma às composições que, antes, viviam apenas à base da emoção, por vezes introspectiva, mas por vezes racional.
The Singing Horn é um disco que consegue fazer o ouvinte se visualizar no ápice dos bailes de gala aristocráticos do século XVII, exortar influências nítidas de compositores clássicos e ainda entreter o espectador com o mais belo que a atmosfera operística tem a oferecer. Acima de tudo, o disco mostra, prova, destaca e destrincha toda a versatilidade dramatúrgica do trompete.
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