The Truth Is Not Your Enemy | The Gilhoolys lança álbum que reflete sobre os tempos atuais

A bateria é o elemento sônico responsável por puxar a introdução da composição de abertura. Já se apresentando capaz de explorar ideias sensoriais relacionadas à densidade e intensidade, a canção, surpreendentemente, flui para uma paisagem branda, delicada e fresca assim que a guitarra entra em cena. A partir desse instante, Little Glasgow Boy esbanja a sua fusão bem trabalhada de indie rock e rock alternativo de forma a transpirar um aroma noventista atraente e contagiante. Entorpecente, é importante pontuar que a presente obra é agraciada por um bom corpo entregue por um baixo marcante e de grooves bojudos.

Seu nascimento é marcado por um comportamento instrospectivo, mas uma introspecção associada a uma curiosa inclinação ao sorrateiro. Ao cínico. Combinando uma espécie de sensualidade orgânica a partir da movimentação adotada por uma guitarra ausente de distorção, a faixa, ao menos durante seus momentos iniciais, destaca a sintonia entre melodia e a camada lírica, a qual é construída por uma voz masculina afinada em suas doses de agudez delicada e suavemente açucarada. Ganhando corpo e uma dose bem-vinda de aspereza, a faixa-título acaba transpirando uma postura questionadora e um tanto reflexiva que chama a atenção do espectador.

Com um despertar semelhante àquele desenvolvido na canção anterior, a presente composição cria um diferencial ao propôr ao violão uma fluidez inclinada ao suspense, ao sombrio e ao denso. Se desenvolvendo de forma a destacar a sua postura introspectiva e profundamente amorfinante, a canção chama a atenção por misturar interessantes nuances de inquietação e absurdez a partir do tom usado pelo vocalista. Mantendo uma estrutura rítmica majoritariamente linear, Parasitic Stereotypic consegue se transformar em um produto dramático, mas sem ser necessariamente apelativo.

É interessante perceber como, aqui, a combinação de ritmo e melodia leva o ouvinte a experienciar uma sensorialidade um tanto lúdica. Delicada e minimamente aromática, a canção se destaca por apresentar um cantor que se apresenta, agora, com um tom mais nasal, o que proporciona a aquisição de diferentes texturas ao aspecto estético da composição. Serena e cheia de nuances repletas de vulnerabilidade, Your Cartoon Life é a primeira do álbum, até o momento, a apresentar uma sensorialidade melancólica tão transparente. 

Seu início apresenta algo que faz o ouvinte se ajeitar na cadeira. Diferente das canções anteriores, em que a sonoridade tinha uma espécie de intervalo em presença, a presente faixa, desde seu despertar, traz um conteúdo sonoro bem trabalhado no que tange o aspecto da mixagem. Com uma limpidez surpreendente, até mesmo o baixo se percebe mais aveludado junto a um violão manso e aromático. Delicada e combinando suaves contornos sensorialmente bucólicos, Perdition pode ser considerada uma importante canção em meio à track list do álbum pelo fato de ela combinar emoção, interpretação lírica intensa e uma sonoridade cristalina.

Alguns álbuns se destacam, principalmente, pela sua camada sensorial. Esse é o caso de The Truth Is not Your Enemy. Como um álbum que traz consigo a proposta de ser inteiramente reflexivo, ele se pauta em camadas introspectivas que, em determinados momentos, combinam melancolia, absurdez e dramaticidade, mas sem ser apelativo.

Agraciando suas faixas em uma base sônica pautada no folk, é inevitável que o disco tenha, em si, um aroma bucólico penetrante. É justamente por meio dele que se percebe a dualidade entre suavidade com o denso. O terno com o chocante. Ainda que traga alguns escorregões em seu processo de mixagem, o disco consegue passar, com exatidão e precisão, a sua intensão de ser pensante perante o amplo aspecto da humanidade.

Não é à toa que de toda a sua track list de 10 faixas, as cinco primeiras tenham maior impacto. Isso porque elas encapsulam tudo o que foi pontuado até aqui de forma mais enfática. Mesmo assim, como um conjunto, todos os títulos de The Truth Is not Your Enemy soam como um único exercício de reflexão sobre família e a erosão da humanidade em razão do narcisismo.

Mais informações:

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