Sem dúvida alguma, o que o violão faz durante a introdução da faixa é algo de se admirar. Não, não há brilhantismo ou uma tecnicidade exagerada. O que o instrumento faz é construir uma atmosfera de sensorialidade madura e pungente a partir de uma movimentação de aparência amaciada. Fazendo com que a obra assuma uma postura introspectiva rascante enquanto a melancolia se mostra um importante pilar emocional, a faixa vai caminhando por terrenos lancinantes profundos em meio ao seu minimalismo estético-estrutural. No instante em que a guitarra entra em cena, um toque levemente atmosférico e entorpecente se soma à receita sensorial. Nesse ínterim, It’s Just A Show é agraciada por uma bateria de levada repicada e uma linha lírica de natureza aérea que fortalece o seu caráter intimista. Com boa presença do baixo no contexto melódico, a faixa se mostra agraciada por bom corpo e densidade conforme suas silhuetas adquirem contornos reflexivos marcantes.
Não há uma introdução de fato, daquelas que permitem uma entrada gradativa dos instrumentos e uma construção paulatina dos contextos melódico, rítmico e harmônico. Aqui, a canção já começa em um primeiro verso bem definido, maduro. Estruturado diante de uma atmosfera linear e com uma harmonia sequencial, a canção segue uma mesma linha sônica durante boa parte de sua execução. De nuances melodicamente ondulantes que lhe conferem um estado entorpecente, algo que se destaca principalmente por meio da maneira com que o vocalista vive os versos líricos, Mr. September é minimamente sincopada e se vale da adoção singela de reverb em determinados momentos, o que lhe confere uma nuance astral contagiante.
Saindo não do marasmo, mas da introspecção latente e pegajosa oferecida até então pelas obras anteriores, a presente composição parece se aventurar no oferecimento de um ambiente mais amistoso. De brisas alegres e levemente expansivas, a introdução, pautada na movimentação amaciada da guitarra em meio ao seu riff equilibrado entre dulçor, agudez e acidez, a canção se destaca pela sua natureza floralmente aromática e por uma crueza devidamente romanceada. De base melódica trotante providenciada por um baixo de groove encorpado, mas levemente cisudo, Follow You Anywhere é construída perante uma atmosfera contagiante e radiofonicamente amiga. Sem apelação, no entanto, pela aquisição de novos ouvintes, a canção, incontestavelmente, bebe de uma aparência mais envolvente e de fácil digestão. Uma verdadeira balada, pode se dizer.
A sanfona entra em cena com a sua autenticidade adocicadamente ácida perambulando livremente pela dianteira melódica. Providenciando uma maciez entorpecente, o instrumento é capaz de denotar nuances melancólicas perceptíveis em meio à desenvoltura sônica que se forma. Delicado, aromático e proporcionando um ambiente amaciado à obra, o instrumento parece ser aquele elemento que carrega consigo a alma da faixa. Fresco e devidamente introspectivo, o produto apresenta, uma vez mais, um casamento amistoso entre os conceitos de introspecção e melancolia. A partir desse desenho sônico, é interessante perceber que a faixa-título apresenta uma conjuntura harmônico-melódica que muito relembra aquela alcançada por Roy Orbison em Oh Pretty Woman, seu respectivo single.
Não necessariamente com a mesma receita, mas seguindo o mesmo caminho trilhado em Follow You Anywhere, a presente faixa também se destaca por ser moldada perante uma estrutura sônica contagiante, macia e de apelo radiofônico. Atraente em meio à sua linearidade rítmico-melódica pulsante, é interessante perceber que Believers transpira uma natureza introspectiva que é, ao mesmo tempo, sensual, fresca e cuidadosamente sincopada. De refrão atmosférico, transcendental e entorpecente, a canção se destaca por ter uma identidade reflexiva de natureza etérea.
Aqui, o ouvinte se vê diante de um produto sônico agradável, contagiante, leve e amaciado. De silhuetas fortemente marcadas por contornos reflexivos percebidos a partir de posturas introspectivas que se mostram, por vezes, intensas e viscerais, The World Inside é um disco que se vale, necessariamente, da combinação de ações reflexivas com sensos pautados na melancolia.
Não há densidade ou qualquer tipo de complexidade sônica. No lugar, o disco apresenta o simples de uma maneira muito bem trabalhada. Bateria, guitarra, baixo, violão e até, por vezes, gracejos de uma sanfona, são o suficiente para criar ambientes intimistas pungentes, reflexivos e entristecidos, com outras de nuances atmosféricas, etéreas e com leves brisas sensuais.
É por isso que as cinco primeiras faixas do disco se destacam. Elas encapsulam de maneira mais direta cada um dos apontamentos até aqui listados. Invariavelmente, porém, The World Inside, em sua totalidade de 11 títulos, traz outras obras de relevância. Exemplos disso são a indie sincopada Fortunate Sons e Whispered Things, com seu baixo acentuado e presença de elementos de sopro que lhe garantem mais vivacidade. Diante disso, se percebe, então, que The World Inside apresenta uma sofisticada evolução no que tange à sonoridade folk do The Iddy-Biddies, enaltecendo, inclusive, a sua sensibilidade.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/70m3JPV9SPPHTuxtrdNBve
Site Oficial: https://www.theiddybiddies.com/
Soundcloud: https://on.soundcloud.com/FJTgkoOS2rbFdoTnS3
Bandcamp: https://the-iddy-biddies.bandcamp.com/
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