O violão entra em cena disseminando um estado de calmaria envolvente e tão profundo que chega a ser até mesmo entorpecente. Delicado e suspirante, o instrumento vai sendo o responsável por construir um ambiente sônico, ainda que inicialmente, minimalista e cheio de cuidado. De zelo. É até interessante perceber, conforme a canção evolui em sua mansidão quase espectral, a presença da influência da MPB na estrutura desenvolvida pelo instrumento, que, invariavelmente, expressa uma postura frágil e delicada bastante comovente. Evidenciando, agora de forma permanente, a sua estrutura instrumentalmente minimalista, a canção não se inibe em fortalecer a sua postura introspectiva, mas cheia de graça e movimento. Nela, existe um charme sutil, mas bastante pronunciado, que encanta o ecossistema. Existe um perfume, sem excesso, mas capaz de tornar o cenário mais doce, sedutor e cheio de beleza. Mesmo que, conforme a sua maturação, a obra recaia perante um escopo estético-estrutural linear, Nenya consegue conversar alegre e sutilmente com o suave, o sereno e o transcendental. Tudo com agradáveis toques de gentileza, educação e serenidade capaz de amornar até mesmo os corações mais sisudos.
Seguindo a mesma linha estrutural da composição anterior, o que acontece em Canto é uma desenvoltura suavemente mais elaborada, mesmo que proferida somente pelo violão. Aquém daquele intimismo acústico proferido em Nenya, a presente composição segue com uma nota de alegria sutilmente em destaque. Com mais sensualidade e movimento, a obra chega a até mesmo flertar com a paisagem de uma bossa nova vinda diretamente da áurea década de 60. Lembrando, portanto, uma energia à la Tom Jobim, a faixa, com seu perfume floral mais acentuado, encanta pela fragilidade, mas, essencialmente, pelo senso de envolvência que transpira de cada nota proferida pelo violão. E o interessante, inclusive, é que existem momentos em que a melodia executada pelo instrumento chega a até possuir um detalhe sertanejo e interiorano, tornando Canto uma composição ainda mais contagiante e sedutora.
Seu compasso não engana. Apoiada na mesma essência das obras anteriores, a presente composição expressa, por meio dos riffs do violão, uma maciez fresca bastante associada ao universo da MPB. Tal como em Canto, é interessante observar que, também em Fara, existe uma exploração na construção de uma sensualidade contagiante no que tange o caráter de maciez estético-estrutural. É essa a identidade que mais marca a sua paisagem sônica, inclusive. Com mais silhuetas associadas ao acústico, Fara é uma música rápida em duração, mas não menos marcante em melodia.
Three Duets se consagra como uma trinca de obras-primas reluzentes. Ambas agraciadas por tamanha delicadeza, as faixas convidam o ouvinte a caminhar alegremente pelo acústico e, principalmente, pelo minimalismo estético-estrutural. Aromáticas e intimistas, elas oferecem paisagens envoltas em maciez, sensualidade e um toque latino chamativo, uma vez que se apoiam no universo da MPB.
Com direito, portanto, a uma transição entre intimismo, ânimo e sensualidade, o EP apresenta composições que exploram, acima de tudo, a versatilidade do violão. Que se aventuram pela delicadeza e pela sensibilidade que o instrumento consegue prover a cada novo riff dele extraído. É assim que Three Duets destaca a dedicação de Matthias Lindner em ofertar canções de alta qualidade.
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