É encantador se deparar com uma composição que, desde o seu início imediato, esbanja uma suavidade melódica que é, ao mesmo tempo, fresca e macia. Graças ao movimento do violão, a composição ganha ares de conforto que capturam rapidamente a atenção do ouvinte que, inclusive, se percebe flutuando e entorpecido ao primeiro sinal dos versos líricos vocálicos e ululantes. Esteticamente delicada, a faixa apresenta um cantor de voz afinada e adocicada que garante novas notas de vulnerabilidade à canção, mesmo na presença de um baixo encorpado entregando densidade na base sonora. Ainda que traga, conforme se desenvolve, uma estrutura rítmico-melódica de vislumbres lineares, a faixa faz com que a sua guitarra ofereça um amornar reconfortante e o que aparenta ser a viola entregar um dulçor honestamente frágil que suscita um senso de liberdade contagiante. Ao tratar de viver a vida sem direção, Tim Henricks evoca a confiança na imprevisibilidade do destino ao mesmo tempo em que celebra a autoconfiança e a beleza da incerteza.
Quando chega um novo capítulo, o ouvinte se depara com uma nova estrutura sonora, mas aqui, em Apple Day, a energia suave e frágil parece se manter inalterada. Construída sobre uma base rítmica firme, a faixa permite que o ouvinte deguste tanto da afinação equilibradamente aguda da guitarra quanto do tilintar levemente agudo do chacoalhar do pandeiro na base rítmica. Entregando movimento e um suave toque de sensualidade, o instrumento percussivo fornece um veludo estonteante que chega até mesmo a ser entorpecente. Aromática e com inclinações atmosféricas, a música consegue fundir interessantes toques nostálgicos com meandros melancólicos de forma a tornar a sua sonoridade redondamente cativante.
Mesmo que o violão traga consigo uma identidade sonora envolvente e melodiosa, ao lado da camada harmônica desenhada pelo teclado o que acontece é que ele auxilia na construção de um ecossistema melancólico bastante pegajoso. Fornecendo um viés cuidadosamente reflexivo, a faixa traz um vocalista assumindo um tom de lamento que chega a ser pegajoso em relação à receptividade do espectador, fazendo com que a obra adquira um viés lamentoso profundo. Mesmo quando conquista precisão com a entrada da bateria, Letting Go traz uma narrativa de superação, o que a torna tocante e penetrante.
Com uma estrutura melódica mais rebuscada, a composição propõe que a guitarra lap steel interaja diretamente com um violão de cadência suavemente acelerada e uma bateria de pulsos firmes, mas de presença enxuta durante o seu processo de introdução. Além do veludo característico desse efeito adotado pela guitarra, os próprios uivos líricos dão à canção uma leveza fresca e envolvente que perdura até mesmo durante o primeiro verso. Mesmo com uma cadência midtempo envolvente e estimulante, Velvetstaircase traz consigo uma característica contagiante que a torna incontestavelmente radiofônica, mas sem apelo exagerado ou distanciamento em relação ao seu caráter singelo. Minimamente alegre, a faixa chama a atenção por colocar o ouvinte em contato com uma energia bucólica extremamente agradável.
Ao entregar After Midnight, Tim Hendricks entrega para o ouvinte um produto com uma sequência de 12 canções estruturadas com base na leveza, no frescor e na suavidade. Com direito a uma simplicidade estético-estrutural naturalmente envolvente, o disco ainda tem direito à exploração de sensualidades aveludadas que garantem um grau de atratividade ainda maior.
Marcado por dar a devida atenção ao baixo, o que permite a identificação da consistência e da densidade sonora, o disco pode até parecer pautado estritamente na seara do pop, mas, conforme avança, mostra inclinações para com o campo do folk que lhe dão uma versatilidade sedutora. Com direito a outras músicas marcantes para além das quatro primeiras, como é o caso da nostálgica Old Friend e da desesperadora Let The Memory Slide, After Midnight se consagra como um produto que traz um bom trabalho de mixagem e uma produção madura que faz com que cada capítulo tenha a sua própria força.
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