To The Four | Ian Rae lança álbum que comemora a façanha de anunciar 17 discos e 10 singles no decorrer de quatro anos

Eis aqui uma canção que já se inicia de maneira a oferecer serenidade, delicadeza e boas notas de introspecção. Diante da singeleza do som extraído do piano, Ian Rae explora um universo de ternura tão denso que chega a ser palpável por parte do espectador. Quanto mais evolui a melodia, a qual vai se mostrando gradativamente compassiva, o músico procura fazer com que Breathe seja uma espécie de escapismo. Um instante em que a audiência pode parar, respirar e se acalmar. Um momento de reequilíbrio energético para seguir com a rotina.

Aqui, o piano se apresenta de forma a criar uma sonoridade doce, mas que, curiosamente, escancara uma natureza repleta de fragilidade e vulnerabilidade. Diante de uma beleza introspectiva que parece buscar alento no transcendental, a canção, ao promover a interação do piano com elementos de sonoridade sintética, acaba, de fato, evidenciando uma fluidez para com um campo mais esotérico e espirituoso. Contudo, o mais interessante em He Was Gone é o fato de que, dentro de um intimismo sereno, é possível de se encontrar brisas de uma melancolia pungente que domina a sensorialidade do espectador de forma imediata.

Se anteriormente o esotérico era percebido, aqui, essa qualidade não é apenas um ingrediente extra. Ela se apresenta como a verdadeira base sensorial da canção que se constrói diante dos ouvidos do espectador. Mantendo a postura intimista padrão de Ian Rae, a canção explora um dulçor vulnerável de forma a criar um universo de caráter até mesmo mântrico. Com um instrumental ligeiramente mais robusto, contando, além da presença do piano, da flauta doce e também do teclado, Old Friend se embebe de um ecossistema interessantemente oriental de forma a destacar a nostalgia como sua emoção máxima.

As lágrimas escorrem pela face do espectador sem serem barradas. Livres escorrendo pelo seio do rosto, elas trazem consigo a tristeza e o sofrimento, mas também uma gratidão honesta, sincera, visceral. Reproduzidas sonoramente por um piano de notas introspectivas doces e cuidadosas acompanhadas de um teclado de performance etérea, cada uma dessas emoções abraça a audiência com uma postura aconchegantemente compassiva. Tal como se oferecesse um apoio incondicional no momento exato do desligamento dessa vida e o acesso ao mundo espiritual, I’ll Be There não necessariamente é baseada no romantismo, mas, sim, em um senso de companheirismo, parceria e, acima de tudo, confidência.

Enquanto as notas ondulantes do piano vão se apropriando do espaço de maneira gradativa apoiadas no efeito fade in, violinos se posicionam na base melódica para promover o veludo, a delicadeza e notas de um frescor bastante sedutor. Reproduzida pelo teclado, essa sonoridade clássica de fato confere ao ambiente um charme associado à delicadeza em seu sentido mais puro. Esse detalhe oferece uma harmonia generosa para com a proposta de Across All Time, afinal, com essa obra, Rae dialoga sobre o conceito de atemporalidade associado à percepção de eternidade.

To The Four é um álbum que, acima de tudo, continua destacando a sabedoria e a sensibilidade de Ian Rae no que tange a construção de cenários sônicos penetrantes, envolventes e intensos. Mesmo que soem delicados, cada universo espalhado pelas nove faixas de sua track list é como uma viagem introspectiva única. 

Conseguindo fazer o ouvinte vivenciar emoções das mais diversas naturezas, as quais vão da melancolia, mas passam, também, pela nostalgia, pelo drama, pelo êxtase e pela gratidão, o disco dá destaque aos seus cinco primeiros títulos. Isso se deve ao fato de eles conseguirem encapsular esses sentimentalismos de maneira mais intensa e pungente. 

Ainda assim, é preciso dizer que existem detalhes presentes de maneira equilibrada em todo o material. A suavidade, o torpor e o veludo acompanham o ouvinte a cada esquina sonora, enquanto To The Four vai servindo como uma comemoração à capacidade de Ian Rae lançar 17 discos e 10 singles em um intervalo de quatro anos.

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