Transhumanity | Andrea Pizzo and The Purple Mice lança álbum que mistura melodias fortres e conceitos visionários

É curioso, pois mesmo diante de uma maciez adocicada de caráter nauseante, o ouvinte acaba sendo capturado pela sensibilidade inerente à introspecção, ao frescor e, também, a lapsos ingênuos de torpor. Com um escopo rítmico-melódico propositadamente frágil a ponto de, curiosamente, ser capaz de construir um senso de sensualidade, Ada se mostra, na companhia de Silvia Criscenzo, uma faixa que, narrada por uma voz masculina de timbre agridoce e nasal, consegue misturar, equilibradamente, nuances de um rock alternativo noventista com uma psicodelia típica dos anos 70.

Ela é fresca e lexicalmente delicada. Desenvolvida inicialmente apenas pelo violão e seu andamento amaciado, a faixa consegue arrancar lágrimas de reflexo no ouvinte em virtude não apenas de sua sutileza, mas pela forma como explora os sensos de melancolia e nostalgia. Delicada em sua máxima essência, a faixa explora uma sensibilidade pungente que toca profundamente o espectador graças à maneira com que o enredo lírico é interpretado. Com uma entrega visceral, mas sem deixar escapar a simplicidade que tanto marca a sua cenografia, o cantor faz de Goodbye, uma faixa com a presença de Riccardo Morello, transpira saudade e faz, portanto, da nostalgia, a sua principal base sensorial.

Depois de uma introdução guiada por uma voz de criança, o que, por si só, dá a ideia de ingenuidade, pureza e imaturidade, The Current War chama a atenção por trazer, pela primeira vez até então, um baixo de groove encorpado e saliente que oferece, à base melódica, a consistência ideal. Flertando com o reggae graças à movimentação sensual-sincopada que a guitarra exerce durante o refrão, é interessante perceber como a obra tem, em si, identidades bastante enraizadas na virada da década de 70 para 80.

Crua em seu sentido mais léxico e dramática em seu sentido mais denotativo, a canção faz com que o ouvinte, rápida e facilmente, assuma uma postura não apenas reflexivas, mas cabisbaixa, entristecida. The Ballad Of Alan Mathison chama a atenção pelo seu caráter orgânico e visceral que explode, surpreendentemente, em um cenário agraciado por uma guitarra de distorção estridente e um melodrama que flerta com a estrutura progressiva. 

Os pulsos digitais do beat, os quais surgem de maneira sincopada e sequencial, dão uma ideia prematura de um ambiente dançante. Dramática, mas longe da intensidade da faixa anterior, a presente composição vai se emaranhando cada vez mais pelo ecossistema da música new wave. Teatral, Bombshell traz consigo uma estrutura que flerta com a roupagem de nomes como Roxette.

Com certeza ele pode ser entendido como um álbum plural. Versátil. Afinal, ele transita, de maneira eficiente e consistente, pelos terrenos de uma série de paisagens musicais. Do rock alternativo ao progressivo, passando pela new wave e por flertes com a música eletrônica, Transhumanity combina envolvência, dramaturgia, teatralidade e torpor de uma maneira bastante equilibrada.

Ainda que esses detalhes sejam mais visíveis principalmente diante das cinco primeiras faixas de sua track list, o material ainda confere, a todos os seus títulos, uma crueza e um detalhe orgânico que saltam aos ouvidos. Salientando todo o restante dos ingredientes sensoriais, é esse detalhe que faz, do álbum, uma viagem sonora sem precedentes.

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