Uma voz aguda e açucarada é ouvida entoando uma espécie de canto vocálico indígena. Com clima de improviso e pura espontaneidade, a canção se desenvolve lentamente enquanto oferta, ao ouvinte, uma imersão gradativa, mas profunda, em um ambiente enigmático. De energia forte, a cada sonar extraído de sua melodia, a faixa permite a percepção de se tratar em um aprofundamento ambiente nativo. Não à toa que o espectador consegue sentir o frescor e a umidade da mata o envolvendo em seus braços amplos. Enquanto esse som aparentemente proveniente da flauta de pã preenche a base melódica, o baixo eletrônico de Felix X Tigersonic invade o cenário por entre súbitos rompantes bojudos. Superando a marca dos 13 minutos de duração, Get Some Ears se configura como uma obra denotativamente experimental guiada por sonares secos semelhantes ao do chimbal na criação de um compasso rítmico. De crueza exemplar, é preciso salientar que a presente obra traz o lo-fi como seu gênero-mãe, moldando, por completo, toda a vivência sensorial sugerida ao ouvinte. Cinemática e assumindo a forma de uma cantiga, a faixa tem, em si, versos líricos de dificultosa compreensão por, ainda que soe onomatopeica, parece ser baseada em uma língua nativa trazida de forma penetrante.
Aqui o trio apresenta uma sonoridade mais tradicional. Envolta em uma melodia padrão, a faixa apresenta um toque adocicado de leve estridência vindo de um instrumento que parece ser a sanfona. Por meio dela, além de ser percebida uma crueza já em processo de desenvolvimento, a faixa se permite mergulhar por entre uma ambiência folclórica cativante. Ainda que isso aconteça, rapidamente Beginning retoma aquela atmosfera experimental regida por cantos vocálicos, monossilábicos e ondulantes. Mantendo a veia nativa, a faixa evolui sua estrutura por entre uivos vogais e sonares percussivos tilintantes que ofertam percepções rítmicas singelas. Nesse ínterim, o baixo é notado, por entre bocejos gordos, promovendo a inserção de uma sonoridade ácida e sintética. Generosamente mais curta que sua antecessora, Beginning, com seu pouco mais de um minuto de duração, amplifica e arregimenta o cenário teatral proposto pelo Etudes Study Group.
Um vocal de caráter gutural invade a cena simultaneamente com o baixo eletrônico. Entre a ácida estridência do instrumento, é possível de se imergir no caos, em uma aparente desordem que chega a causar ímpetos de desconforto. Com direito a sons que parecem reproduzir o estalar das chamas queimando o mato, a canção chama a atenção pela forma como baixo cria uma atmosfera sombria, nebulosa, pegajosa. Uma ambiência em que o medo impera, a insegurança reina e o pavor impera, mesmo diante dos versos líricos cacófatos produzidos com veemência. Slow Without Losing The Flow se vale por sonoridades lexicalmente experimentais e uma atmosfera denotativamente crua, bruta. Ausente de qualquer tipo de lapidação.
Com essas três músicas, o Etudes Study Group, contando ainda com nomes como Jo Morrison e Ningrui Liu em sua formação, rompe a barreira do que se entende por experimental. Expande os limites da crueza. Flexibiliza o que se entende por espontaneidade e improviso. Aqui é onde o teatral e o dramatúrgico se fundem com o lo-fi e o nativo em meio a um ecossistema que causa um confronto direto com a incerteza. Eis aqui um mundo anárquico no que tange aos padrões na música. A liberdade grita até onde seus ecos conseguem chegar.
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