UDEiGWE lança Live in Williamsburg, álbum ao vivo gravado em casa de show do Brooklyn

Existe uma sutileza pairando pelo ar. Uma delicadeza introspectiva que torna o ambiente curiosamente charmoso e convidativo de forma a ser ambientado a partir de uma iluminação penumbrosa, mas sem qualquer sinal de tensão. Enquanto a bateria vai desenhando a base rítmica com repicar sereno, o teclado traz dulçor à melodia e o saxofone, veludo à harmonia. Reflection consiste em uma composição de bom corpo em razão da desenvoltura do baixo, mas marcada por boas doses de pensar oferecidas a partir da entrega lírico-interpretativa do vocalista em meio ao seu timbre grave.

Se fosse uma canção brasileira, poderia afirmar que a composição traz, em si, influências do maracatu e do manguebeat em sua estrutura. Aliás, mesmo não sendo, é possível adquirir essa impressão a partir da união de bateria e teclado. Junto com um baixo de groove levemente azedo, a sonoridade da obra vem com uma espécie de crueza intrigante, mas que é envolta em boas doses de maciez. Com uma postura mais malandra e provocativa, mas sem se associar, necessariamente, à libido, Mr Sabi, em razão da vivência verbal trazida pelo vocalista, vem com um frescor agradavelmente sensual cheio de fluidez e ginga.

Intimista, sim. Dramática, não. Aqui, a bateria puxa a introdução com uma levada amaciada e acústica que sugere, de fato, uma envolvência introspectiva organicamente sedutora que ganha peso e consistência com o apoio do baixo. Oferecendo ondulações que sugerem um movimento além do conceito de linearidade, o instrumento parece brincar com os solfejos melismáticos expressos pelo vocalista. Delicadamente sincopada, What’s Going On se destaca em razão de uma mansidão estético-estrutural aconchegantemente entorpecente.

O veludo e a sensualidade se combinam a partir da simetria construída entre teclado e bateria. Enquanto um reproduz o som tipicamente macio do fender rhodes, o outro expressa um compasso sincopado de contornos curiosa e levemente inclinados ao latino. Fresca, delicada e sensual, Falling se mostra uma composição de veia acústica demasiadamente sedutora em virtude da conjuntura estético-estrutural alcançada entre instrumentação e camada lírica. Importante destacar, também, que a obra traz momentos de interessante e direta interação entre vocalista e saxofone, criando um efeito sonoro bastante intrigante.

Combinando balbuciares onomatopaicos com um groove bojudo e uma linha rítmica requebradamente sensual, a canção faz com que o intimismo alcance um caráter de pura sedução e movimento. De estrutura harmônica ondulante e, inicialmente, tímida, Footprints se consagra como um instrumental, uma jam session cheia de entrosamento, sintonia e desenvoltura de poder contagiante.

Estar em um show é onde a sonoridade alcança uma qualidade superior à do estúdio e isso acontece em razão da alma. Da alma entregue pelo público e da energia que contagia a banda como um todo. Como tal, Live In Williamsburg traz UDEiGWE  em sua forma mais madura, consistente e solta.

Mostrando uma desenvoltura que vai do introspectivo ao sensual com notável versatilidade, o disco combina jam sessions sincopadas com composições de caráter macio, sensual e cheio de entrosamento. É aí que ele evidencia a mistura do jazz com uma escola vocal que traz consigo grandes influências do soul.

Sendo mais presentes durante as cinco primeiras faixas, essas qualidades estão, inquestionavelmente, presentes em todos os 10 títulos de Live In Williamsburg. Dando o mesmo destaque dos metais ao baixo, o álbum ainda mostra que, mesmo ao vivo, UDEiGWE consegue oferecer uma sonoridade robusta, emotiva e com uma espécie de malandragem latina extasiante.

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