É interessante como a sonoridade sintética, ainda que mansa, seja capaz de construir, no ouvinte, sensorialidades inerentes à insegurança e à melancolia. Favorecendo a ideia de um embrionário caos diante de um ecossistema completamente introspectivo enaltecido sobremaneira em virtude tanto do timbre agudo e doce de Forent C. quanto da interpretação lírica para a qual é usado, Perfect Disaster consegue, realmente, misturar delicadeza com tensão e vulnerabilidade em meio a uma sensualidade ludibriante.
Guiada por beats de estrutura levemente mais atraente do que aqueles que moldaram a paisagem rítmica da composição anterior, Phonetic Dreams tem, no piano, o instrumento que pincela dulçor e serenidade em sua paisagem sônica ainda em construção. Misturando interessantes menções da house music em virtude da forma com que a sonoridade percussiva se anuncia, a faixa faz com que sua desenvoltura linear mantenha unidos a melancolia e o soturno em prol de um universo completamente entorpecente.
A dramaticidade entra em cena com o pé no peito. Intensa e até mesmo ríspida diante de uma sonoridade contraditoriamente delicada, essa sensibilidade consegue fazer com que o ouvinte traga à tona vários descontentamentos há muito protegidos. Quase como se fosse capaz de representar os sensos de desmotivação e ausência de pertencimento, a faixa-título se mostra pegajosamente introspectiva e agressivamente deprimente. Entre falsetes bem executados e uma interpretação lírica intensa, Florent faz da faixa um produto que mascara o desespero e a insegurança com sonoridades aveludadas e energias etéreas.
Diante de um timbre editado digitalmente para um tom mais estridente e azedo, a cantora acaba, invariavelmente, envolvendo a composição em outras texturas capazes de salientar a sua natureza, ao mesmo tempo, reflexiva e melancólica. Surpreendentemente, diante de uma paisagem realista e rotineira, He Never Talked apresenta Florent dialogando sobre uma temática mais palpável e tangível, sem necessariamente mergulhar no introspectivo. Aparentemente falando de desamor, a faixa combina, ainda, paisagens urbanas e noturnas que trazem um novo aspecto da melancolia para o centro dos holofotes.
Iniciada por um teclado cujas notas não somente escancaram a new age como sua base sonora, mas a morfina e o introspectivo como os seus alicerces sensoriais, a faixa explora o onírico e o etéreo sem, necessariamente, precisar do apoio lírico para tal atividade. Chamando a atenção pela sua inclinação fantasmagórica em virtude da forma como a cantora interpreta o conteúdo verbal, Guinea Pig se mostra uma canção de textura macia, mas inquestionavelmente alucinógena.
Underwater City não pode ser entendido como um álbum comum. Ele não pede pelo gosto das rádios, para início de conversa. Afinal, seus cenários são sombrios, melancólicos e pegajosos. Podem até combinar o transcendental com o etéreo e nuances levemente místicas, mas ele se vale por um torpor incontrolavelmente incandescente.
De postura intimista inquestionável e imutável, ele evidencia a consciência musical de Florent C. e a sua destreza em mergulhar profundamente no universo do dark pop. A partir daí, se percebe intensos flertes para com a new age, além destacar influências, talvez, indiretas, de nomes como Billie Eilish.
Tendo seus cinco primeiros títulos como as principais provas do que foi pontuado até então, Underwater City, em meio ao seu track list completo, é um convite irrecusável a um caminhar por um ambiente em que o caos e a serenidade andam juntos de forma harmônica. Um álbum densamente imersivo repleto de sonares hipnóticos.
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