São sons que indicam o início de uma gravação. Da distorção sendo ligada ao toque amadeiradamente opaco e tilintante do encontro das baquetas, a composição consegue passar não apenas a ideia do improviso, mas especialmente uma leveza em relação à fluidez do seu processo de execução. A partir de uma tonalidade digital e generosamente sintética, o synth-pop é a primeira pista estrutural a surgir em relação à identidade da canção, algo que definitivamente se esvai com a brisa do vento conforme a bateria cria um ambiente acústico quebrado e uma melodia swingada graças à movimentação assumida pela guitarra. Caminhando perante um ritmo em 4×4, Introduction (Experience) ganha uma camada de um torpor dramático e teatral com a chegada dos violinos, mas cuja lucidez é mantida pelo timbre grave do vocalista, um timbre bastante semelhante àquele de Caleb Followill.
O som é gordo e opaco, aparentemente retirado do trombone. Caminhando pelo ambiente de maneira sorrateira, tal como uma criança tentando despistar os seus atos travessos, o instrumento é ouvido de maneira propositadamente truncada e acompanhado somente pelo compasso seco e espaçado do chimbal. Quando a bateria entra por completo e o violino se apodera da base harmônico-melódica por entre suspiros secos, a canção assume imediatamente contornos de um melodramático épico. Com sua levada sincopada e uma atmosfera folkeada marcante, The Chimney Sweeper (Experience) tem, em si, uma narrativa melancólica que aborda a dura realidade dos meninos limpadores de chaminés do século XVIII.
É como o crepúsculo nascente, como se a luz do sol fosse vista no horizonte trazendo a vida e boas doses de uma calmaria envolta em esperança. A partir do dulçor ácido típico do hammond, não apenas o corpo melódico, mas também o harmônico têm a sua elaboração anunciada. Instrumentalmente sincopada e feliz por ser abraçada por uma boa participação do baixo, a canção acaba transpirando corpo e densidade a níveis ideais para que a sua camada sonora soe firme e consistente. No entanto, Ah! Sun-Flowers não escapa da sua própria essência melancólica, a qual é muito bem explorada pela própria combinação instrumental, que, inclusive, desemboca em um contexto de postura chorosa e denotativamente lamentadora. Deixando a música com uma aura ainda mais excêntrica e original até mesmo em relação às obras até aqui apresentadas, é uma voz feminina e equilibradamente aguda e doce que rege o enredo lírico. Em clima de dueto, porém, a faixa se consagra como um produto de natureza incontestavelmente hipnótica.
Suspirante, mas adequadamente macia, a canção, a partir do dedilhado da guitarra em contato com o veludo do teclado, suscita um interessante contorno postural reflexivo. Delicada em meio à sua esfera rítmico-melódica, a composição continua pincelando a melancolia como um importante aspecto sensorial da sua sonoridade conjuntural. Entorpecente e igualmente envolvente, Earth’s Answer combina a secura ondulante do chimbal com o veludo adocicado do teclado e o movimentar valsante cuidadosamente expresso pelo violino. Diante de uma paisagem como essa, a faixa até consegue expressar estímulos dançantes e interativos, mas se vale essencialmente de um aconchego nostálgico expresso especialmente pela interpretação lírica adotada pelo vocalista em contato com o restante do instrumental.
Tudo aqui é sereno, mas de um jeito inovador. Afinal, o que o {Blake} entrega com IV. Here & Now é uma conjunção de composições de atmosferas indiscutivelmente teatrais e de corações dramatúrgicos. Sempre envoltas em boas doses de melancolia, mas respaldadas por um instrumental folkeado cheio de sentimentalismo e profundidade emocional, as canções fornecem delicadeza e uma honestidade palpáveis.
Ainda que tenha as suas quatro primeiras faixas como as mais importantes da sua sequência de músicas por ser nelas que cada um desses apontamentos se apresenta com mais evidência, títulos como Ici, com o protagonismo do dulçor ácido do hammond; e My Pretty Rose-Tree / The Lilly, com a guitarra alcançando um tom tão agudo quanto aquela sonoridade excêntrica da harpa, além de um instrumental denso, groovado e folkeado, também merecem a devida atenção. Com elas em foco, IV. Here & Now alcança um patamar de dramaturgia penetrante.
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