A crueza e o orgânico são fatores que imediatamente capturam a atenção do ouvinte diante da paisagem introdutória da composição. Enquanto um chiado parece trepidar e causar nuances de uma textura levemente áspera, o torpor acaba se tornando um elemento sensorial inevitável, mesmo que de presença gradativa e singela. Felizmente, assim que o instrumental ganha corpo e se mostra em sua totalidade, o espectador é presenteado com estímulos sensoriais que vão do aconchego, passam pelo veludo, transitam pela introspecção, observam o frescor e são capturados por brisas oníricas. Groovada e emitindo um sinal de completo improviso, Coming Into Land se configura como um prelúdio envolvente e de uma embriaguez inescapável.
Ao contrário da composição anterior, que se iniciou com uma breve trepidação, a presente obra tem um amanhecer expansivo por fornecer uma camada sonora já completa e penetrante. Oferecendo um desenho estético-estrutural em que baixo, bateria e teclado se comunicam de forma bastante harmoniosa, a faixa transpira certo quê de sensualidade conforme o enredo lírico vai se formando a partir de uma voz masculina afinada em seu tom intermediário. Surpreendendo por elaborar um esboço verbal de natureza somali, Dhunkasho (Kissing) conta com uma leveza estonteante que se associa sinergicamente com uma levada rítmica cuidadosamente sincopada perante uma base atmosférica.
Cairo Stress já vem com uma atmosfera bastante diferenciada. Ao contrário da colorida ambiência sugerida em Dhunkasho (Kissing), a presente composição explora um ecossistema urbano a partir do som áspero obtido com a distorção da guitarra e do toque ambiente de sirene policial. Rapidamente, uma melodia excêntrica, arredondada, dedilhante e levemente metálica vinda de um instrumento da família dos cordofones faz com que a obra transpire uma regionalidade inquietante e inquestionável. Expandindo a sua significância e, portanto, superando a sua sugestão unicamente indiana, a faixa é respaldada por uma estrutura harmônico-melódica que ainda conta com a agudeza açucarada e aveludada do teclado, a corpulência saliente do baixo, os repiques da bateria e uma maciez estridente originária de instrumentos de sopro. É assim que o autêntico atinge um nível de sabedoria, musicalidade e, acima de tudo, originalidade.
Depois de uma introdução verbal léxica que esbanja sinceridade e honestidade, shaker, baixo, bateria e elementos percussivos de tonalidade opaca suscitam a elaboração de uma paisagem introspectiva. Ainda assim, no comando lírico de uma voz feminina aveludada e de traços brevemente roucos, a faixa transpira uma saliência amaciada, penetrante e dançante que chama a atenção do ouvinte de imediato. Com melismas que misturam a incidência do R&B e vestígios ligeiros de waslat, Addis Ababa traz consigo uma base pop árabe adocicada e envolvente.
É verdade que o álbum é composto por um total de nove músicas, mas é impossível não se ater aos seus primeiros quatro títulos e, a partir deles, encontrar a sua identidade. Não apenas versátil, mas marcado por uma multiculturalidade afiada e saliente, Upstream, Vol. 1 é um disco em que, portanto, diversos sons e idiomas convergem e criam um ambiente plural, expansivo e convidativo.
Ainda assim, Riverside Woman, com a sua junção do canto dos pássaros com o chiado e a acidez adocicada do wurlitzer em conluio com as texturas sintéticas de uma aspereza estridente, também é uma importante obra presente na track list. Dessa forma, Upstream, Vol. 1 se configura como um disco de veia marcante e que atiça a curiosidade do ouvinte em relação à trilogia Upstream.
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