Viajes (Travels) | Alex Pertout lança álbum definido como um mapa global de fusão sônica

A delicadeza expressa durante a introdução da faixa transcende a significância léxica da própria palavra. Afinal, com uma delicadeza surpreendente, ela convida o ouvinte a mergulhar por um cenário regido por um cuidadoso senso de fluidez incentivado pela arquitetura de um folk de viés andino. Mansa, aromática e fresca, a obra também se destaca por explorar diferentes texturas sem se tornar bruta e, portanto, sem se perder de sua identidade frágil. Envolvente principalmente pelas suas brisas de característica onírica, La Cordillera / El Palomo, com sua duração superior a oito minutos, faz com que o ouvinte se entorpeça pelo veludo fofo do flugelhorn e se perca pelo dulçor educado do piano que preenche os espaços presentes na base melódica. Na presença de uma conjuntura de vozes que, muito além de criar uma consistente harmonia vocal, superam a definição de elevação espiritual, a faixa chega a soar como um produto de veneração e gratidão na silhueta rítmico-melódica de um folk andino de influências jazzistas observadas, por entre outras coisas, pela postura da bateria e pela utilização da vassourinha.

Tendo um estilo andino como base de sua desenvoltura rítmica, a faixa, invariavelmente, explora maciez e sensualidade, mas sem se apoiar, necessariamente, em um viés de natureza libidinosa. Fresca e estruturalmente delicada em meio ao groove marcante do baixo que insere consistência a partir da base melódica, a composição bebe de uma vulnerabilidade aveludada fornecida pela guitarra ao mesmo tempo em que as variações vocais dão menções de uma harmonia fluida. Farewell, com o seu intimismo sereno e seus breves compassos tilintantes em razão do emprego do triângulo, dá a ideia de uma nostalgia iminente, mas de sentimentalismo curiosamente reconfortante.

Se La Cordillera / El Palomo já foi considerada uma obra folk, Ashirvad, certamente, extrapolou sobremaneira a significância literal do gênero citado. Afinal, aqui há o emprego de elementos rítmicos alternativos, como o pau-de-chuva, além do sonar característico da flauta de pãn. Profundamente intimista, aromática e delicada, a presente obra, quanto mais avança em relação à sua estrutura sônica, mais destaca a sua origem venerante, nativa e repleta de uma simplicidade hipnótica. Contando com o saxofone como um elemento importante a oferecer uma agradável noção de fluidez, a composição usa de suas inclinações atmosféricas para transpirar uma identidade espiritual simplesmente vibrante, mesmo que se mostre diante de uma desenvoltura inquestionavelmente introspectiva. Na forma da obra mais longa de Viajes (Travels), Ashirvad tem momentos de compassos rítmicos amaciados e pulsantes, além de instantes completamente ausentes de elementos percussivos como forma de explorar apenas o âmbito sentimental. Ainda assim, não há dúvidas de que a presente composição seja um perfeito exemplo de obra equilibrada entre o exprimir de texturas e o aventurar de emoções.

Entre os frágeis dedilhares do violão, o ouvinte não se perde em embriaguez, mas, sim, no fornecimento dos primeiros sinais de uma união sentimental calcada entre melancolia e nostalgia. De despertar intimista e estruturalmente minimalista, a faixa explora as pausas como uma forma de amplificar uma dor nascente, além de usar, da respiração, como uma maneira de salientar a ideia de saudade. Entre o emprego do trompete e do flugelhorn, elementos que se dividem entre a expressividade lírica e a pura menção harmônico-melódica, Lejos De Ti é marcada pelo emprego de elementos rítmicos que vão das maracas aos timbales, os quais são capazes de dar movimento ao sentimento expresso de maneira teatral pela voz feminina que preenche os versos verbais.

Viajes (Travels), a partir daquilo que o ouvinte consegue observar e sentir no decorrer da execução de suas seis faixas, se mostra um produto musical que fornece uma jornada sônica por ambientes cheios de excentricidade, delicadeza e uma natureza nativa penetrante. Entre intimismos, minimalismos estético-estruturais e profundidades emocionais, o disco se vale como uma verdadeira viagem pelos ritmos latinos e pequenas variações estilísticas.

Com nuances catárticas, mas também com incursões de um torpor esotérico marcante e inquietante, o disco navega por ambientes cheios de romantismo, mas também por outros em que a melancolia e a nostalgia se fundem com as camadas atmosféricas que embebem o espectador em um ecossistema espiritual. Do folk ao jazz com direito a constantes passagens pelo bolero e pela música de câmara contemporânea, o disco traz a sensualidade e a maciez como importantes identidades de sua paisagem sônica. É assim que Viajes (Travels) enaltece a sua imagem como um trajeto em que a tradição encontra a liberdade criativa.

Mais informações:

Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/71NXFy3G4NMNHZlS97JUyA

Site Oficial: https://www.alexpertout.com