É como o pingo da chuva escorregando pela folha da copa de uma árvore encontrando o chão após uma queda livre. O som agudo e tilintante do piano pode oferecer, ao mesmo tempo, sensos de conforto e expectativa. Aqui, os espaçamentos entre uma nota e outra dão brecha para que o drama apareça e capture a sensibilidade do ouvinte. Feliz e surpreendentemente, quando o piano engata em um desenvolvimento frequente de suas frases melódicas, ele faz com que Shatter leve o ouvinte a uma paisagem onírica penetrante e cheia de uma beleza indescritível, ainda que comandada por uma estrutura sonora ondulante. Aqui, a delicadeza encontra a introspecção e um senso de contemplação tão intenso que chega a ser hipnótico.
Não muito, mas um pouco diferente da paisagem introdutória fornecida pela obra anterior, aqui o piano sugere uma sutileza lexicalmente delicada. Sua fragilidade generosa e terna torna a sua paisagem melódica em algo acolhedor e aconchegante. Equilibradamente açucarada, a melodia ofertada pelo instrumento, nesse novo contexto, acaba por criar uma semelhança estético-sensorial para com as notas do piano existentes na conjuntura harmônico-melódica de Guardian, single de Alanis Morissette. Em Waterfall, no entanto, a autenticidade reside no dulçor. Na sua forma de expressar delicadeza em forma de cuidado e, por fim, em sua capacidade de transmitir a mensagem de resiliência e fluidez apenas através da maciez de suas pronúncias sonoras.
É verdade que, aqui, a delicadeza também é um ingrediente importante na criação do espectro sensorial. Porém, esse detalhe não é solitário. Ele traz consigo um contato direto com inclinações de cunho tanto reflexivo quanto melancólico. Com certo quê de densidade na maneira com que as notas do piano são pronunciadas em duplas, Broken Waltz é capaz de emocionar o espectador sem muito esforço. Com suas veias introspectivo-reflexivas, ela propõe uma espécie de reconexão do ouvinte com sua essência e busque um processo maduro de autoconhecimento.
Ela pode até parecer borbulhante, mas o fato é que suas notas agudas de inclinações açucaradas dão à obra um caráter não necessariamente místico, mas um tanto espirituoso. Ainda que seja a composição mais curta em duração de Waves (Deluxe), Starlit bebe de uma introspecção tocante que coloca o espectador em uma experiência sensorial levitante. Que o coloca no espaço e lhe permite observar as estrelas e a Terra sob uma ótica nunca antes vista. É como olhar a vida acontecer em um lugar em que o tempo não existe. A contemplação do silêncio envolta pela beleza do universo.
Pode até parecer mais-do-mesmo dizer que, apenas por ser um álbum instrumental, Waves (Deluxe) consegue tocar o espectador. Mas aqui, os argumentos dão ao álbum um quê de autenticidade. Isso porque, aqui, Eddy Ruyter não apela para brilhantismo ou solos de piano rebuscados para buscar uma classe apreciadora mais elevada de ouvintes. Não.
Aqui, ele se usa, muitas vezes, de minimalismos estético-estruturais que causam o mesmo efeito de excessivas notas em vaivém ou em sobe-desce de escalas. A emoção está presente em cada nuance das teclas do instrumento. Da gentileza ao dulçor, passando pela contemplação e também a nostalgia, a melancolia e o drama, o piano de Ruyter é um prato cheio para aqueles que buscam por uma experiência sensorial sincera e direta.
Contando com obras inéditas e canções agraciadas por novos arranjos, a versão deluxe de Waves ainda traz faixas como Broken Waltz (Reimagined) e Waterfall (Reimagined) com a presença ilustre de nomes como Damien Alexander, City Of Dawn e Ross Christopher. Eles dão aos referidos títulos uma paisagem sônica completamente nova com suas contribuições. Do esoterismo a uma camada dramático-emocional pungente, eles provam que Waves (Deluxe) é um álbum com ótimas surpresas e arranjos inquestionavelmente tocantes.
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