You’ll Talk About It! | Lyons Lane anuncia EP americana com um modernismo alternativo

A canção chama a atenção de imediato não por uma questão inovadora, mas, sim, por uma questão de pura e simples audácia. Enquanto muitas obras se apoiam em uma introdução gradativa ou comandada pela postura melodiosa da guitarra, Don’t Shoot The Messenger coloca o baixo como o elemento responsável por esse movimento. Com seu groove naturalmente encorpado, ele conduz o espectador a sugestões de uma sensualidade suave, mas com bons sinais de saliência. Leve e incontestavelmente provocante em razão da atuação lírico-interpretativa assumida pelo vocalista, a faixa é agraciada por um refrão expansivo, regado na presença de metais que engrandecem a esfera harmônica e com o experimento de texturas expressas pelo tilintante contato com a cúpula do prato de condução. Tudo muito bem sintonizado com um groove funkeado viciante.

A provocação segue firme, mas agora sem tanta menção propriamente sexual, de certa forma. Entre um composto uníssono construído entre os pulsos rítmicos e uma guitarra de riff áspero, igualmente pulsante e levemente gordo, a canção explora, com certo tom cínico, uma postura sorrateira que ganha uma ampliação na questão do swing com a presença do tilintar da textura do pandeiro na dianteira percussiva. Depois de o vibra slap produzir o seu som trepidante, o primeiro verso se anuncia e faz com que Tahitian Pearls seja comandada por uma melodia de natureza interessantemente estridente e de nuances graves capazes de salientar, mesmo que brevemente, o toque sorrateiro que tanto marca o seu comportamento. De bons traços debochados, a faixa caminha por uma harmonia linear, mas que é suavizada com um refrão melodioso e adoravelmente cativante.

O baixo retoma o seu quê de protagonismo estacionado na canção de abertura ao reassumir o papel de elemento introdutório. Aqui, porém, apesar de encorpado, ele assume uma identidade mais grave e bruta que se funde, rapidamente, com pulsos rítmicos sequenciais e uma guitarra de riff não apenas reverberante, mas de superfície inegavelmente embriagante. Trazendo consigo uma natureza não necessariamente repulsiva, mas inconstante entre o desejo e a consciência, a faixa, enquanto explora a ideia do medo e da loucura que o amor fornece, Bitten caminha por um terreno introspectivo, mas intrigante e provocativo que explode em um refrão explosivo, mas controlado, que destaca, inclusive, a textura tremulante e ácida que o hammond fornece na base harmônica.

O swing é algo incontestável, inquestionável e inegável. Fornecido pelo timbre do pino muito bem reproduzido pelo teclado, esse aspecto sensorial ganha peso quando percebido com a sensorialidade do rock em sua pureza mais intensa. Ainda que curiosamente consiga rememorar o espectro harmônico alcançado pelo Velvet Revolver em seu respectivo single The Last Fight, A Stop At Willoughby se desenvolve com direito a versos de apelo dançante em meio à sua estrutura sincopada. Melodiosa, mas a ponto de deixar escapar lapsos de melancolia, a canção se vende pela sua profundidade instrumental, com direito a diversos elementos de metal, além da convencionalidade baixo-bateria-guitarra.

You’ll Talk About It! é um EP que entrega um dinamismo animador à cena da música. Não apenas por trazer um ambiente rítmico-melódico que visita o universo do folk, aqui transitando por cenários como o próprio folk, o blues, o rock e o doo-wop, mas por fundir elementos do soul em sua roupagem, o material envolve o ouvinte em meio a ecossistemas dançantes, sensuais e de um cinismo provocante que lhe confere uma leveza viciante.

Com direito à pulsante Ema’s Addiction e à introspectiva Sugar & Spices, eis aqui um material que se destaca pela sua sensibilidade e pela sua musicalidade diversa. Dinâmico, You’ll Talk About It! expõe traços do funk que suavizam o espectro nostálgico nele presente, mas não diminuem, em momento algum, a sua essência inteiramente vintage.

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