Diante de um sonar sintético que mistura menções sensoriais de estridência e uma leve conotação de dissonância, o piano surge logo em seguida com uma espécie de calmaria disfarçada. Diante de sua delicadeza estética, suas notas graves escondem um intimismo associado a boas doses de um sofrimento de cunho puramente dramático.
Diante da combinação de suas teclas, que expressam naturezas intermediárias, agudas e adocicadas, o instrumento consegue fornecer um entremeio entre a negação, o sofrimento e a beleza inerente à pureza e à ingenuidade infantil. Inclusive, ao primeiro sinal de uma voz feminina gutural, a canção ganha silhuetas dramáticas não em seu sentido léxico, mas, agora, em seu sentido teatral e propriamente dramatúrgico.
Diante de cada palavra proferida por Alessia Piermarini em meio à sua fluidez tonal do gutural ao agudo, a canção é atingida por inserções sensoriais não apenas de proteção, mas de firmeza, de poder e de inababilidade. Mesmo com uma agonia presente ao final de cada palavra expressa, a imagem que a cantora passa é a de resiliência e de resistência. Um símbolo de força em meio à iminência do caos. Instrumentalmente minimalista, o que Zagani Lullaby apresenta é um tocante, trágico e belo cenário de uma mãe colocando seu filho para dormir em pleno caos armado de Gaza.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/00UVfaC68wVl1OgHTSHo8f

