A faixa surpreende por trazer uma introdução não necessariamente dramática, mas curiosamente valsante e adocicada através do emprego do sonar típico do violino. A delicadeza do instrumento, mesmo que trazida de forma sintética, é usada, aqui, como a base tanto da melodia quanto da experiência sensorial acerca da narrativa prontamente iniciada. Por entre um beat surpreendentemente frágil que oferece uma agradável noção de fluidez, o conteúdo verbal de Der Elefant é elaborado por uma voz masculina grave afinada que, curiosamente, é capaz de sugerir interessantes notas de frescor com sua cadência rap amaciada. O que também chama a atenção na presente faixa é seu refrão contagiante construído de forma a transpirar desde dramaticidade a detalhes que beiram o épico.
A introspecção rapidamente se funde à melancolia e a um delicado, mas já marcante, contorno sombrio. De interpretação lírica mais vívida, intensa e até mesmo visceral, a canção comunica ao ouvinte uma irreverente e curiosa ideia autobiográfica em virtude da entrega que o vocalista demonstra ter. Cheia de vulnerabilidade, Hyänen Lachen transpira notas de desespero, inconformismo e toques de uma rebeldia imersa em insegurança.
Ela não tem o propósito de ser, necessariamente, manipulativa ou ludibriante. Porém, o fato de ela amanhecer sob um sonar delicado, introspectivo e até saborosamente adocicado em meio ao seu aconchegante senso de veludo não esconde a verdade entorno de sua melancolia rascante e visceral. Em meio a um beat que mantém o senso de maciez explorado até então, Gorilla Geschäfte praticamente vomita, através da interpretação lírica, o mesmo grau de inconformismo explorado na obra anterior. Nesse aspecto, é até interessante perceber como a utilização de autotune auxilia na ampliação do senso de dramaticidade e de intensidade sentimental em relação ao conteúdo lírico narrado.
O piano, com seu dulçor grave e rígido, continua com aquela melancolia rascante desenhada especialmente desde Hyänen Lachen. Aqui, porém, diferente das faixas anteriores, o choro é um detalhe importante no que tange a sua proposta de experiência sensorial. Afinal, ela não é apenas triste e melancólica. Ela é sofrida. Angustiante. Lamentadora. Ainda que o autotune suavize parte desse sofrimento e dessa dor, o beat de mesma métrica em relação àquele usado nas obras anteriores dá ao enredo lírico a possibilidade de ambientar o espectador em um mundo noturno e urbano, mas não marginal. Em Nachts Im Zoo é importante destacar que o beat traz, sim, detalhes que lhe dão uma identidade, uma originalidade. Tal aspecto de autenticidade está inerente aos chimbais trepidantes e sincopados, os quais conferem à faixa um aspecto inclinado à paisagem estrutural do trap.
Zoo Deutschland não pode ser tido como um disco de rap comum. Afinal, ele traz um conceito. Uma linha narrativa que surpreende pelas metáforas e pela sua roupagem estética. Enquanto oferece ao ouvinte uma vivência sonora envolta em crueza associada a um rap urbano, a melancolia e a dramaticidade estão logo ali, acompanhando, de mãos dadas, cada som e cada palavra cuidadosamente pronunciada.
Ainda que tenha suas quatro primeiras faixas como importantes provas acerca do que foi pontuado, o álbum traz uma lista de faixas que chama a atenção pela sua ousadia em usar metáforas envolvendo a imagem de alguns animais como forma de representar não apenas a vida na rua. Por meio dessa figura de linguagem, o álbum também se permite abordar assuntos como lealdade, traição e o senso de sobrevivência especificamente em uma Alemanha moderna.
Mais informações:
Spotify: https://open.spotify.com/intl-fr/artist/3P2qEje9U3eZwdRZrMY53r

